No Brasil bastou o aumento de 20 cêntimos no preço dos transportes para a população sair às ruas e protestar estrondosamente contra as políticas do governo de Dilma Roussef. Cansados da corrupção que mina a vida política do país, os brasileiros têm mostrado, com ruído, que há outras prioridades mais prementes que o gasto de milhões de reais em obras suntuosas para acolher o Campeonato do Mundo de Futebol, em 2014. O aumento do preço dos transportes públicos foi a centelha que fez ativar a multidão num país com grande potencial, mas com uma desigualdade social gritante. Em Portugal, somos bem mais pacíficos e ordeiros, mesmo que sejamos vítimas de uma brutal carga fiscal, um nível de desemprego nunca visto e com uma perda de poder de compra notável. Na Madeira, nem se fala. Para além de pacífica, a população é ainda mais passiva. Não se manifesta. Mantém-se acomodada. Razões sociológicas à parte, constata-se que prevalece uma subserviência identitária secular perante os que mandam, diante do“chefe”. Não se comenta para não melindrar, não se critica para não aborrecer os que têm efetivamente o poder na mão ou se julgam com autoridade discricionária sobre o futuro de cada um. Há um medo instituído do confronto e da simples discussão, fomentado em larga escala por quem dirige. No país e na região, em particular, o “respeitinho” é elevado e sublinhado no tratamento que se dá ao médico, ao advogado, ao engenheiro, ao diretor e ao presidente. O “senhor doutor”, o “senhor engenheiro”, tudo por extenso e bem pronunciado, não vá o destinatário, que presta um serviço e é pago por isso, ter acordado maldisposto. Esta forma de estar que, em muitas ocasiões roça o provinciano, não ajuda na assunção de um espírito livre e crítico, capaz de contestar de frente as situações injustas, com coragem e determinação. No fundo, quase ninguém diz o que pensa francamente. Mantêm-se na periferia. Até alguns jornalistas são contagiados por essa inefável veneração. Basta estarmos atentos para vermos que nalgumas entrevistas o entrevistado, detentor de cargo público relevante, é sempre questionado de forma subserviente: “o senhor doutor considera?;“o senhor engenheiro concorda?” O “país do salamaleque” agudiza-se numa terra onde os que mandam são sempre os mesmos, os que pertencem à casta social dominante. E a cultura da bajulação eterniza-se, infelizmente. Faz-me lembrar a época em que os homens tiravam o chapéu da cabeça para cumprimentar o senhor, mal este assomava à porta da entrada do trabalho, pela manhã. Ou os meninos que se tinham de levantar mal o professor pusesse um pé na sala de aula. É óbvio que a boa educação e o respeito não se veem nesta forma de estar. O português e o madeirense em particular têm de saber exigir mais aos que governam, aos que dirigem. Vivemos numa paróquia que continua a ser pasto propício para a multiplicação dos pequenos ditadores. A desobediência civil e o direito à indignação são legítimos em democracia. De forma ordeira e sem violência.

Roberto Ferreira