Há uns dias, ao descer a pé a nossa cidade, dos Álamos até à baixa, num belíssimo fim de tarde luminoso em que o mar estava tão calmo que “fazia caminhos” (como diz o nosso povo) e um azul leitoso parecia unir céu e oceano num mesmo magma inaugural, pensei para comigo: como podem coexistir neste mesmo momento do Espaço-Tempo esta beleza azul que me comove, e quase cega, e o imenso sofrimento que preenche os olhares e os corações de tantos seres neste mundo atordoado por um movimento incessante, que é fome insaciável em todos os corpos que crescem de dentro para fora, sempre em busca de qualquer coisa de fogo, que demasiadas vezes nunca é encontrada… Dentro de mim, liguei esta diletante meditação, à leitura recentíssima da última obra de Herberto Helder, ‘Servidões’ (Assírio & Alvim, 2013). Nela, Helder fala do projecto, infinito, de escrever “o poema fixo entre as palavras móveis”. Aí, fala-nos, também, do possível terror da beleza, quando uma luz súbita pode tornar as coisas demasiado reais e sem retorno. “Ou se devora tudo/ ou não se toca em nada”, diz-nos. Brilhante síntese de todas as místicas, de todos os tempos. Enquanto as palavras forem móveis e o poema fixo haverá sofrimento, e a beleza azul será terrível por sobre este mundo deveras distante do início remoto de tudo. Têm, sem dúvida, razão os que falam do desapego, como remédio sereno para não enlouquecermos ao nos encontrarmos perdidos no amplo abraço transparente desta cósmica contradição que nos devora. Talvez tivessem também razão os antigos gregos, quando preconizavam a aceitação ‘trágica’, face à incompreensível e pura vastidão deste Universo de trevas e luz, demasiado velho e vasto para se deter nos olhares e nas pulsações de seres tão frágeis, como todos os que habitam este canto do Universo. E talvez sejamos frágeis porque nos preencha uma Luz que nos ligue a uma raíz muito longínqua, latente para além dos próprios universos que a encerram… Um “estado de milagre” que só nos consola durante alguns segundos... “Todas as luzes acesas e ninguém em casa”.
Miguel Santos Cooperante da “Espaço às Artes - Cultura Ponto Zero”