O momento que atravessamos exige de todos os agentes políticos a capacidade permanente de qualificar a nossa democracia. Por isso optei por partilhar convosco um excerto de um discurso proferido pelo Vice-Presidente da Câmara Municipal de Cascais, tão claro sobre o momento que atravessamos e sobre a necessidade permanente da qualificação da democracia. “Mas foi neste tempo e nesta ânsia de encontrar uma solução para todos os males do mundo que a humanidade fez uma fascinante descoberta: os técnicos. Não falavam como políticos, não se pareciam com os políticos e não se comportavam como os políticos. A moda pegou tanto que um político, sem um técnico ao seu lado, não é político, não é nada. Temos políticos que se disfarçam de técnicos, temos técnicos que, no fundo, são mais políticos que os próprios políticos e, ironia das ironias, morreu o politicamente correto. Viva o tecnicamente correto. Os técnicos procuram todos os dias a pedra filosofal para a felicidade dos povos com uma fórmula matemática, uma simples fórmula científica e, entretanto, desenham pareceres, diretivas e medidas que harmonizam o que não é harmonizável e que tornam igual o que é, de facto, diferente. Em Itália, por exemplo, suspendemos a democracia durante um ano para que os técnicos pusessem o país na ordem. Durante um ano não houve políticos para ninguém, depois os técnicos devolveram o país aos políticos e à irresponsabilidade do povo que tem esta mania de eleger políticos e não técnicos. O exemplo italiano não foi, nem é único, nem sequer inédito. Em Portugal, por exemplo, também já pensámos assim mas o técnico acabou por nunca mais devolver o país aos políticos e ficou por cá mais de 48 anos. Todas as ditaduras são, inevitavelmente, técnicas. Mas não estou, com isto, a sugerir que os políticos são melhores que os técnicos. A minha questão é outra. Desde a última vez que nos sentámos nesta mesma sala, em vez de um resgate à Grécia, temos agora três resgates à Grécia. Em vez de um país intervencionado, temos quatros países intervencionados. Se antes tantos tinham a certeza que a solução era expulsar a Grécia do Euro, agora há quem chegue à conclusão que talvez fosse melhor expulsar a Alemanha do próprio euro. Se antes tínhamos uma crise com as contas dos Estados, agora a crise é com as contas de cada um de nós e a verdade é que deixámos de ter as finanças públicas ao serviço das pessoas para passarmos a ter as pessoas ao serviço das Finanças”.

Orlando Fernandes Presidente da JS-Madeira