O sol batia forte no Terreiro do Paço. O Tejo liso de um azul escandaloso deixava passar os veleiros esguios e gigantes felizes por deixarem o mar da palha. Uma luz ímpar da cidade branca brincava com as sombras projetadas pelo Pátio da Galé que vende Portugal para turista em recordações fabricadas pelo merchandising dos nossos galos de barcelos, lenços dos namorados e azeite extra virgem de uma oliveira nacional. Símbolos de um país ternurento. Os galos porque são galos coloridos que um dia cantaram no final das madrugadas; os lenços porque nos ampararam as lágrimas ou os sorrisos matreiros de um amor qualquer; o azeite porque nos serviu para retirar da escuridão. Uma fila de homens pedalam e atravessam a praça limpa quebrando o meu único objetivo no momento, mastigar vagarosamente um muffin de noz que a bica curta potenciara o volume, num desequilibrio entre o seco e o líquido, uma asneira previsivel mas negligenciada quando os olhos se fixam no panteão amarelo torrado da outra margem do Terreiro. As janelas do Ministério das Finanças, coisa pesada. Lembrei-me, de repente, de uma notícia antiga, talvez com dois anos, de um projeto de pousada que seria inserida naquele edificio histórico. Não aconteceu nada, explicaram-me. O nosso futuro chama-se adiamento. Com a visão pousada na cultura do medo, uma “dádiva” do capitalismo global desregulado, senti-me sem rede quando um tornado se levantou do chão e arrancou-me o muffin das mãos. Era só um bolo, por favor. Posso? Não. Não posso. E sinto-me culpada. Entrara no vórtice da espiral do défice orçamental e dos juros da dívida, os itens mais importantes do orçamento. Da orquestra afinada pelos novos modelos nascidos da “nova economia” (presentemente já ninguém fala dela) responsável pela criação de “modelos matemáticos avançados” e que acabaram por não gerir complexidade nenhuma, sobretudo do sistema financeiro que ficou sem supervisão de nada. Esta é a verdadeira espiral que nos sugou e nos suga e que continua opaca tal como os mercados. Um muffin é hoje um pecado ou um risco moral? Um crédito mal parado para o meu estômago? O meu muffin vai implodir? Nesta praça a guilhotina está pronta para os “entusiastas consumidores” e não para os credores irresponsáveis que desde 2008, no minimo, se socorreram do Estado para não entrarem em queda livre, quando antes defendiam o fundamentalismo do mercado. Então, meus senhores? Menos Estado e tal e coisa, não era? Afinal, em que ficamos? Ficamos bem. Financiamos os prevaricadores com austeridade em cima do povo, cortes na saúde, educação, salários, despesas sociais (esqueçam as palavras poupança e sustentabilidade vendidas pelos governos) contribuindo, ainda, com mais impostos para salvar uns, a banca e as instituições financeiras, e diretamente ajudarmos a aumentar o desemprego, a falência das empresas, o desespero coletivo. Não há plano de salvação nenhum para uma crise que continua num processo de metamorfose, apesar dos alertas. E os partidos continuam a guerrear-se numa Europa dividida entre os países que mandam e os países resgatados, perigosamente empurrados para um vácuo social onde os conflitos espreitam a cada esquina aprofundando ainda a crise da legitimidade política. A perda de confiança dos cidadãos essa, sim, é legítima. Cada vez mais. E não nos falem em “economês”. Quando os protestos sociais aumentam, e eles são também globais por alguma razão global, abre-se caminho para os movimentos populistas e para um clima de hostilidade sem limites. Engoli o muffin com soluços. Eis a economia real.
* jornalista do DN nacional, na Madeira
Lília Bernardes