Diz que era um povo que se contentava com o que Deus lhe dava. Futebol, samba e feijão era o que lhes bastava para serem felizes, sem lágrimas. Afinal, não chega ser bom de bola. O Brasil levantou-se a um ano da Copa do Mundo para dizer não a tanta coisa, inclusivamente não ao despesismo que o Mundial e os Jogos Olímpicos acarretam. Reivindicam esse dinheiro para a economia. E não basta vir o rei da bola, Pelé – que provou ser melhor de pé do que de cabeça – dizer que está na hora de apoiar a selecção e esquecer a confusão nas ruas. O Brasil tirou o pé do chão e não foi para sambar.

Não consigo de deixar de me lembrar do Euro 2004. Foi bonito para quem gosta de bola como eu. Estava a acabar o curso e não havia dinheiro para ir ver jogos aos estádios, mas a cidade fervilhava de acontecimentos, de gente, de cachecóis e de muitos linguajares. Lembro-me de comerciantes satisfeitos, com o impulso do negócio, mas terão sobrevivido à crise de hoje? E não se pode deixar de pensar – perante estádios às moscas, como o de Aveiro, Algarve ou Leiria – se fez algum sentido? E as derrapagens? E os contratos lesivos?

Não é tempo de chorar sobre leite derramado, de facto, mas de ir aprendendo. Aprendemos alguma coisa?

Penso ainda nas piscinas para ninguém na Madeira, na Marina de milhões sem barcos e que volta e meia é levada pelas ondas, nas estradas para meia dúzia de gente usar, nas praias de areia forçada, que não têm força para resistir ao mar. Nos transportes públicos que, por cá, também galopam nas escala dos preços. Na saúde, ai, a saúde. E em quem nos diz, repete até a exaustão, que quem contesta a obra da Madeira nova, é a Madeira carunchosa. E os de fora que são invejosos de tanto desenvolvimento. De tanto se repetir uma ideia tornamo-la verdade? É que, afinal, aos brasileiros não bastava uma ‘peladinha’, feijão, forró e sol.

Por cá a história é outra. Anos a fio de mais do mesmo, numa falsa segurança, que parece cada vez mais vulnerável, tanto como as fozes das ribeiras da Madeira nova. Temos o Ronaldo. O Brasil tem o Pelé e um povo que clama na rua por mais justiça social. Que chama governantes à ordem, que quer outro rumo. Talvez nos falte samba no pé, somos o país do fado, a Região do bailinho, do baile pesado. Não gingamos com a mesma facilidade e ao contrário dos brasileiros ainda não percebemos que a nossa acção cívica não acaba no dia das eleições. E que se vale a pena uma nação se levantar para comemorar um golo, também vale, ou vale mais, para lutar por vinte cêntimos. Mas não percamos a esperança, que a 'Gabriela' também demorou algum tempo a atravessar o Atlântico.