Ivo Silva Nunca gostei de citações. Toda a gente já se apercebeu, com certeza, que citar é algo que não cabe nas diferentes e muitas análises que faço em torno das questões laborais e periféricas ou subjacentes, nas quais inclui, obviamente, questões de natureza política, que não partidária. Por princípio o meu sindicalismo não analisa a situação política. Nunca, até hoje, chegou junto de mim, ou ao balcão do meu Sindicato, um trabalhador a pedir ajuda para que lhe fosse aconselhado ou sugerido em que partido político deveria votar. Porém, nesta minha carta vou citar, é forçoso: “- PARA ALGUMA COISA SERVE A DESGRAÇA.” E é verdade! Para alguma coisa serve a desgraça. A crise que o país vive, e que tem um efeito muito profundo na economia regional, tem trazido dificuldades acrescidas ao comércio, ao comércio na generalidade. É óbvio que os congelamentos salariais, a redução de salários, os cortes nos salários e subsídios da função pública, agravamento da carga fiscal, etc. e, com excepcional gravidade as perdas dos empregos, ou seja a perda dos salários, reduzem substancialmente o poder de compra. Como o trabalhador é o consumidor a dinâmica da actividade comercial enfraquece. Todavia, Nem tudo é crise, crise verdadeira. Há muito oportunismo em torno da crise. Há uma estatística teimosa de um deputado que sempre que pode, e pode muitas vezes, aprece na comunicação social a apresentar centenas de empresas que faliram, que encerraram, ao longo dos anos, anos de crise. Sim de crise e de eleições. De crise porque quando é para aumentar salários há crise. E quando há eleições há crise, também. Se trouxéssemos contabilizadas o número de empresas que o Sr. deputado diz que encerraram, acredite-se que já não haveria empresas. Estavam todas encerradas. Excepto - claro está - as que têm aberto, aquelas que têm iniciado a sua actividade no mercado regional. Caso ilustrativo: este Sr. deputado nunca, mas nunca mesmo, se refere a estas empresas. O Sr. deputado quer que seja pânico, quer acusar o governo de ser o responsável pela causa do pânico, até que ele próprio, o Sr. Deputado, seja governo. A partir daqui o Sr. deputado será o que os seus correligionários são no Governo Central. O Sr. deputado quer também que as empresas aufiram mais e que os trabalhadores ganhem menos. E, o Sr. deputado sabe e não diz: - Que há empresários, que, com uma desfaçatez ignóbil, repulsiva e indigna; capazes do mais hediondo que encerram empresas (a mando do Sr. Deputado para tornar a tragédia mais trágica? Não. É apenas por desfaçatez…), promovendo insolvências, e nestes processos, libertam-se dos trabalhadores com contratos efectivos e diuturnidades vencidas. Realizado este objectivo, que contou com o silêncio dos trabalhadores, este empregador voltou a abrir outra empresa, para empregar os mesmos trabalhadores, mas, agora, na condição de contratados a prazo. A troco do emprego, os trabalhadores guardaram silêncio, não denunciaram e perderam a antiguidade e as diuturnidades. Passaram a trabalhadores precários, que, a qualquer momento, perderão também o seu (actual) emprego, porque estão contratos a prazo – e, assim, se faz a estatística, uma estatística teimosa de um deputado que sempre que pode, e pode muitas vezes (…) Na desgraça ganha o político e o empresário. Na crise perdem todos os trabalhadores, as vítimas da desgraça.