Esta semana caiu na minha caixa de correio não uma mas duas pérolas daquele pergaminho fora de tempo, escritas por uns avôs milionários após uma forte insolação na moleirinha. Os novos-ricos da política (excepcionais acumuladores de folhas remuneratórias, também conhecidos por colecionadores de fortunas) bem que se esforçam mas também cá em casa, aquelas folhas de jornal não dão para grandes lavagens cerebrais. Lavar só se for as janelas com Ajax porque sempre se vê melhor o que se passa lá fora. Neste mundo que nos rodeia, nos contorna e aperta. Ao usar aquilo para limpar janelas, sempre se consegue ver com a transparência que outros abominam. O efeito, como se percebe, não é o pretendido pelos ardinas do poder ou pelos semeadores do pensamento único, de resto, redutível.

Já ninguém se dá à maçada de ler aquelas prosas arcaicas e dementes, esgalhadas em papel cor de laranja, qual pergaminho rançoso fora do seu tempo. Frases feitas e repetidas até à exaustão, inspiradas num ódio de estimação contra os eternos inimigos fantasiosos. Criam fantasmas, cultivam uma sociedade acrítica, medrosa e dependente, em nome de uma Autonomia onde se foi instalando um governo prepotente com um poder altamente corrosivo ao ponto de parasitá-la durante décadas até não sobrar mais nada.

Falo daquelas pérolas da máquina de propaganda que continuam a ser cuspidas para as caixas de correio e que têm escrito no cabeçalho ‘Madeira Livre’, trazendo lá dentro opiniões só explicáveis no domínio da neuropsiquiatria ou da parapsicologia. Se aquilo não é uma antítese perfeita desse regime esbanjador, é uma aberração da lógica dos sentidos, uma obscenidade política ou um sarcasmo qualquer. Mas qual Madeira livre? Livre de quê e livre de quem? Livre para quem e livre para quando? Livre a mando de quem?

Mas quem nos liberta das taxas moderadoras na saúde, do filtro da morte que são aquelas listas de espera por cirurgias no hospital? Quem nos liberta da região do país onde mais cedo se morre em Portugal? Quem nos liberta do aumento do IVA que está a contaminar a economia e do IRS que nos subtrai poder de compra? Que Madeira livre engoliu sem piar também os aumentos do imposto sobre produtos petrolíferos que tornaram os combustíveis da Madeira nos mais caros do país? Quem nos liberta dos preços proibitivos pelos títulos de transportes que os nossos estudantes têm de suportar? Em que Madeira livre os atletas pagam as deslocações do próprio bolso para competir? Quem nos liberta da mais elevada taxa de desemprego do país e quem estanca a fuga dos cérebros e a emigração dos jovens? Que Madeira livre leva tudo aquilo que pagamos em multas de trânsito e não devolve um cêntimo à segurança pública? Quem nos liberta da fome envergonhada e do empobrecimento das famílias e do fecho diário de empresas? Que Madeira livre só consegue pagar calotes com o aval do Estado, usando dinheiro emprestado pela Banca e dando graças a Deus pelo resgate da ‘troika’ que acaba de libertar 1,1 mil milhões de euros para pagar salários e subsídios de férias aos funcionários públicos? Quem nos liberta do aumento das taxas nas creches e infantários? Até quando estaremos condenados a esta ‘Madeira livre’ tentacular que apenas exibe uma mão para pedinchar e a outra para tributar?

Quem nos liberta dos vícios do poder e da tentação do governo para controlar, mesmo que ilegalmente, sendo árbitro e jogador, toda a comunicação social na Madeira? Quem liberta os pregos das tábuas de madeira e aquelas lonas que cobrem o tecto do bloco operatório do hospital do Funchal? Mas afinal que Madeira livre oferece um tecto de favela ao Serviço Regional de Saúde quando tinha um hospital novo para construir? Quem nos liberta do luxo de dispensar médicos e enfermeiros e quem liberta a Educação do emagrecimento de professores? Quem liberta a Madeira livre desta perversão de prioridades políticas que mantêm, no topo da pirâmide, a máquina da propaganda com 25 mil atestados de menoridade intelectual com bombardeamento de verborreia que quinzenalmente chegam, às dúzias, às caixas de correio, testando os limites da paciência dos madeirenses? Para quando uma Madeira livre de parasitas, de criminosos que se escudam na imunidade parlamentar e de ocultadores de contas públicas? Para quando uma nova geração de políticos responsáveis, honestos e que encarem o futuro com determinação? Para quando um governo mais preocupado com a pesada herança que está a deixar aos nossos filhos do que com a sua obstinação pelo efémero poder? E para quando um governo que governe?