Uma greve para ter qualquer efeito prático, para fazer valer os direitos e posições negociais dos trabalhadores, tem de causar transtorno. Tem de mostrar, claramente, que os trabalhadores fazem falta. Uma greve dos autocarros não pode ser marcada entre as três e as seis da manhã ou a meio da tarde, uma greve da hotelaria só tem razão de ser nos períodos de maior ocupação e até uma greve de jornalistas tem maior efeito em períodos de grande intensidade noticiosa como, por exemplo, as campanhas eleitorais, os dias de eleições ou dos jogos Porto - Benfica. Só assim é possível pressionar as entidades patronais – uma greve é isso mesmo – e tentar alterar situações que se consideram injustas. A não ser assim, as greves são uma total de perda de tempo e dinheiro para os trabalhadores e motivo de gozo para os patrões.

Escrevo este texto quando ainda não são conhecidos os números da adesão à greve dos professores, mas já com a certeza de quem em muitas escolas do País não se realizaram exames. E na maioria dos casos os alunos mostraram compreensão pela luta dos professores o que é um sinal de esperança em relação ao espírito democrático destas gerações mais novas.

Sinceramente, acho a data bem escolhida, se o Governo estivesse interessado em dialogar e negociar tinha outro comportamento e não a postura arrogante e ridícula do ministro Crato.

Num dia de aulas normal, a greve não teria qualquer efeito, os alunos iam para o café e os pais nem se importavam com isso, o Ministério ria, os professores perdiam um dia de salário e ficavam mais perto da mobilidade imposta e do despedimento.

Ao contrário do que se quer fazer crer, embora seja por isso que os professores se batem, não estão só em causa as condições de trabalho (a sobrevivência do posto de trabalho) mas toda a escola pública que este Governo quer destruir. Numa insanidade que já provou ser uma catástrofe mundial, querem entregar tudo aos privados, aos amigos e mandar para o desemprego funcionários públicos. É isto que querem, sem aspas ou paninhos quentes.

A iniciativa privada é essencial, muitas vezes mais adaptada e eficaz do que a pública em muitos sectores, mas na Educação não é. Destruir a escola pública, o ensino igual para todos e sem distinções sociais e económicas é (também sem aspas) destruir a democracia, criar um País de privilegiados e voltar ao tempo da ditadura.