Neste domingo o Subdirector do Diário, Agostinho Silva, no seu espaço de análise, bateu forte e feio nos “políticos”: interesseiros, na pedincha de votos, banais e incompetentes, vendedores de banha da cobra, artificiais, à procura de se servirem em vez de procurarem servir os outros. Todos estes epítetos dirigiam-se essencialmente aos habituais protagonistas da política regional, quer os do poder quer os da oposição, alertando-os para o grau mínimo de tolerância que os cidadãos atualmente manifestam perante os políticos e o seu “pequeno mundo”, fruto da conjuntura de brutal austeridade, aumento do custo de vida, desemprego e falências que grassam como epidemias, e todos os outros males que martirizam a nossa nação, à beira-troika plantada… É um texto com que muitos leitores se terão sentido de imediato identificados – o descontentamento generalizado tornou fácil arrasar a classe política, a periclitante saúde financeira do país e as draconianas condições que nos foram impostas pelos credores geraram desconfiança e descrença. Mas não será esta uma visão algo simplista da realidade? É certo e sabido que em todos os partidos há gente reles, corrupta, tachista e carreirista, mas também em todos, sem excepção, há pessoas de bem, com espírito de missão, que genuinamente acreditam no que fazem e que trabalham arduamente em prol dos seus concidadãos. Costuma dizer-se que em todas as profissões há bons e há maus, e é normalmente o exercício da profissão que separa o trigo do joio, premiando os melhores e castigando os piores. Há excelentes médicos que dedicam toda uma vida a salvar a vida dos outros, como há maus médicos que tratam os doentes como lixo; há professores extraordinários que por genuína vocação se entregam ao ensino, apesar de estarem revoltados e se sentirem perseguidos, como há professores que descarregam em pais e alunos todas as suas frustrações; há notáveis jornalistas que diariamente nos explicam como vai o país e o mundo, com rigor, imparcialidade e isenção, como há governantes que ostentam a carteira de jornalista sem que tivessem exercido a profissão, fazendo tábua rasa dos princípios e tratando a ética a pontapé… O que é que não bate certo nisto? Precisamente o facto de “político” não ser uma profissão. Um político pode ser médico, professor, jornalista, advogado, bancário, agricultor ou operário. No fundo, todos e cada um de nós pode (e deve) ser político… Como? Tomando posição, tornando-se militante, ou criando um partido novo se tal for necessário - ou um movimento, que está mais na moda e em termos de conceito funciona melhor (“partido” sugere divisão, “movimento” pressupõe acção); participando, opinando, criticando, exigindo. Não basta apregoar que os políticos não prestam – há que substituir os maus pelos bons, e as mudanças fazem-se bem melhor construindo por dentro do que destruindo por fora. Afinal, seria possível existir uma sociedade moderna e democrática se linchássemos os políticos e extinguíssemos os partidos? Claro que não, e quem afirma o contrário está a ser demagógico. Agostinho Silva terminou o seu artigo exortando os cidadãos a exigir maior responsabilidade antes de a entregar de ânimo leve, porque “cada cidadão está cada vez mais por sua conta”. É isso que cada um de nós pode mudar, dando o melhor de si para ajudar a castigar os maus e a premiar os bons. Uma decisão tão simples como não se abster em qualquer eleição, pode fazer a diferença. Votar pode ser um protesto, não votar é ser culpado por omissão e negligência. Por isso, se a tolerância está no mínimo, prefiro apelar a uma participação cívica no máximo. Somos todos políticos.
Raul Ribeiro