É outro este bairro. Desci pelas escadas (não sei quantos são os degraus). O café do mesmo lado da rua tem paredes e portas transparentes. Não há fronteiras ao olhar. Há presenças, quem passe e não entre, há acenos fortuitos em horas em fuga. Oco aquário (por uma ou outras tantas horas) ou quase caixa de correio onde vozes e vidas vão e voltam por tardes perdidas. É um vão pelo avesso do prédio, abertura no betão de dias murados. Navegamos a vida à vista. Entrei silenciada, bastou o sinal quotidiano: dois dedos levemente erguidos na horizontal (um café curto). Entre o eco de copos e colheres, o rumor ou o ruído de palavras entrecortadas, sons surdos. A chávena sobre a mesa e o olhar cúmplice sobre o envelope que abri: um presente, o presente. (Quarenta e um anos completados naquele dia, o presente subtraído ao passado traído, ou distraído. Ido.) Reconheci a voz do homem de costas sentado ao balcão, de copo na mão: – “Tem que ler a coluna da doutora”. Eu lia linhas manuscritas. Ouvi murmurado o meu nome (o homem olhou-me como se para responder à surpresa da mulher, menor que a minha perante estas palavras: “coluna”, “doutora”. Matéria de anatomia, parecia. Matéria de escrita, percebi então, enquanto o homem dizia: “inventa a vida”. O homem falava sobre colunas alinhadas como estas, matéria de tipografia. Sem grau (nem do vinho que o homem bebia) nem cura (assunto para doutores), senti abir-se o centro do abismo: quarenta e um anos de vida (ou não, que a vida não cabe num dia, a vida não cabe na vida; não sei, só me sei aprendiz). Assombrada pela dúvida ante o verbo, assim dito, “inventa”: presente ou imperativo? (Que tempo, que modo?) Pode criar-se a vida que em nós é, que somos? “Inventa a vida”. É este bairro, outra idade, outra cidade. A escola primária é na Rua do Jasmim, as portas de madeira, pintadas a verde, ladeadas por azulejos azuis e brancos. Do outro lado da rua, depois de uma escadaria íngreme, uma casa branca com jardim e uma amoreira. Não entendo por que desacerto toponímico a rua não tomou o nome da árvore de que nascem as folhas com que alimento os bicho-de-seda. Tremo, do alto deste ramo. A minha sombra, somada à da árvore prolongada pela calçada, parece-me (hoje, em vertigem) o abismo para onde caiu a infância. Depois dos degraus de mármore (o som dos sapatos, agora), o soalho encerado, a madeira irregular de tantos passos dados a caminho de cada uma das quatro salas, uma por cada ano, primeiro, segundo, terceiro, quarto. A ombreira de cada sala pintada de cores diferentes, uma por cada ano, amarela, vermelha, verde, azul. Uma corrida, a pressa do intervalo, uma colisão cega na esquina do corredor: o sangue vermelho vivo por dentro da boca, o dente a menos, a fala em tropor, um sobrolho aberto, corpos feridos, dor por dentro e por fora, para o futuro. O tempo tornado cicatriz. É esta a cidade onde moro: a do vizinho que apruma o taxi a cada dia, a da costureira que vive numa quase cave a emendar a escala da roupa que o corpo mudou, a do merceeiro que guarda feijão, favas, grão, arroz em caixas de madeira (o cheiro, ainda), a da capelista que vende fita-cola, esferográficas, envelopes ‘via air mail’ (e o papel quase sem peso que guardam, já dobrados), carrinhos de linha, ‘collants’ de vidro (e se se partirem, pergunto-me), a da vizinha que vive os dias suspensa no parapeito da janela, suspensa de passos passados (os dela), dos passos presentes (que não se detêm nem olham), do dia que se faz tarde até que a janela se feche, assim o olhar. Outra rua e a vida a crescer com a cidade, ao olhar, sob os pés. Agora a Rua do Século (eu penso no tempo; descrubro ter havido um jornal com esse nome há muitos anos; é justo o nome, antigo como o jornal, demorado como o tempo). Outra a escola, na Rua das Gaivotas (elas voam, a caminho do curso do rio, perto). Aprendo em escala interior o trânsito dos corpos, um código da escada a prometer o que anos mais tarde seria o código da estrada: há uma escada em caracol pela qual só é permitido descer (pelo lado largo da escadaria, amplo) e outra só para se subir, os degraus rectos, escuros e estreitos (a consentir beijos furtivos, o toque nem sempre casual de principiantes do amor a descobrir o encanto pelos cantos, pele e paredes corpo a corpo entre tantos sentidos perdidos, encontrados). A cada regresso da escola uma nova experiência, a de testar o peso do corpo em atrito com o mundo em movimento ao saltar, sem que pare, do eléctrico. A placa indica o número 28, não sei de onde parte nem a que lugar chega; reconheço na palavra ‘graça’ sentido de humor ou elegância – ensinam-me vozes antigas de casa; sei de poucos ‘prazeres’, por enquanto, por tanto por vir, espero. Sei – senti – ser possível suspender por um segundo a lei da gravidade, pura leveza. Ou peso morto. Uma tarde, ou uma manhã, por um século, para sempre, na rua do regresso a casa, o olhar leva-me para nuvens incertas, encobertas. Do alto de um prédio de três andares (a corda da roupa vazia), vejo, em iniciado voo, cair do céu o que parece ser um cobertor, em contrapeso com o ar. Paro, tento entender o peso específico do que, antes, estraria por dentro de uma cama a abrigar sonos que eu não soube. Demasiado veloz. No embate súbito contra o chão, o som surdo da queda revelou que por dentro do cobertor estava envolto um corpo antigo atirado para o abismo da morte voluntária, uma – toda – a vida em ruína. Em terror ainda, subi os quarenta e quatro degraus que a cada chegada a casa contava, de novo, sempre (não fosse ter-se alterado a altitude do andar ou poder eu enganar-me na morada). Naquela tarde, ou manhã, soube haver uma espécie de gravidade inversa: senti que descia, ao subir as escadas. O abismo para onde caiu a juventude. A casa estava em reconstrução – perguntei-me se haveria como suspender o que está a ruir. Por esses dias desabou areia por dentro das paredes da sala, do escritório. No interior da casa cheirava a praia, a humidade. Andaimes levantavam homens, olhados daqui enormes. Enquanto moldavam e erguiam cópias em gesso da natureza (árvores, ramos, folhas) para suspender no tecto (trabalhado, declararam), senti poder haver uma espécie de vertigem inversa: corpos ampliados pelo meu olhar em plano (mergulhado) desde o solo em direcção ao céu. Havia cobertores no chão. É a casa. Fomos nove, somos menos. Agora é morada de caixotes cheios de vidas em miniatura, fotografias com datas no verso, papéis onde pousam caligrafias que não são hoje as nossas. Há livros e vinis imóveis. Há quartos vazios e silêncio. E eco. O futuro vazio. Mudo. Sim. “Gostaria assim – com gestos largos – / assim tanto de: acreditar que / tudo isto tem banda sonora. / Porém: / para fazer uma canção, / tudo isto trespassado pelo som não chega. / Não chega, não. / É difícil, sim.” (Inês Fonseca Santos, “Marcha fúnebre, lado B”; poema inédito a ser incluído numa antologia editada pela ‘Do Lado Esquerdo’). “Não chega, não.” Talvez a memória (pensada, calada, contada) possa ser a letra inventada para uma canção que não há. “É difícil, sim.” Talvez existam acordes por compor para serem “banda sonora” de “tudo isto”. Uma melodia da vida por inventar.
Diana Pimentel