Com esta trilogia cumpriu-se o sonho de uma direita que se tem vindo a tornar cada vez mais radical. Ao terem-lhe tirado o tapete debaixo dos pés no 25 de abril de 74, ficou à coca, à espera, ressabiada, assistindo perplexa e a contragosto ao mudar dos tempos, à conquista de 40horas de trabalho para todos, à democratização e generalização do acesso à saúde e à educação, da reforma aos 65. - Onde já se viu uma coisa destas? Como pode o meu voto valer tanto como o dum analfabeto? Esta gente sem modos atafulha tudo, as escolas, os hospitais, as ruas. De tempos a tempos lá tinha direito a um governo, uma maioria, mas sempre havia um "homem do apito", laico e republicano que a fazia "baixar a grimpa" quando se excedia e a coisa lá ia andando sem mossas de maior, sem grandes extremismos, balizada por um consensual e adquirido estado social, "pobretes mas alegretes", não havia fome óbvia, todos os indicadores melhoravam progressivamente, colocando-nos pouco-a-pouco no caminho da 1ª divisão das nações. Depois com Cavaco e com o Centro Cultural de Belém, chegou o tempo dos faraós e das suas obras. Era o tempo das "vacas gordas". Em troca da nossa indústria, agricultura e pescas Cavaco recebeu milhares de milhões, havia dinheiro "a rodos". Subsidiavam-se cursos de arranjos florais. Não fazia mal porque afinal iríamos ser um país de serviços e os sectores tradicionais da economia eram coisa do passado. A festa tinha de continuar, interessava que os amigalhaços estivessem fartos, as clientelas satisfeitas, os boys ocupados, as pessoas distraídas. Fazia-se mais um acesso, ao Sul, ao Norte, ao Este e ao Oeste, o circo não parava. Se não havia dinheiro, havia quem emprestasse, uma PPP providencial (até dá jeito à holding do Tininho). Quanto aos juros, adiante-nos o dinheiro agora, que nós pagamos depois, os juros não são problema, pois fazemos as swaps necessárias, assim como assim só somos responsáveis pelos próximos 4 anos, alguém no futuro que se preocupe com o pagamento. Pouco a pouco foram aumentando o nosso deficit, fomos ficando vulneráveis, as pessoas foram perdendo a memória do "antes". Para as novas gerações, o "antes" de contornos mal definidos era algures entre Luís de Camões e Napoleão, ideologias o que é isso? Tudo isto permitiu o advento da cultura pimba, nas festas tocava-se o bacalhau, Tony Carreira vendia mais discos do que os outros todos juntos, Cavaco chegou à presidência. Mas depois chegou a hora de apertar o cinto, de fazermos contas à vida, de acabar com as mordomias, tiveram início os PEC's, 1,2,3 e 4. Os cavalheiros ultraliberais, embora de barriga cheia pelas PPP's, rendas excessivas e outros que já referimos, viram chegada a almejada oportunidade de tomar conta do país e por tudo a seu contento. Estado para quê? Bastam dois ministérios: o dos Negócios Estrangeiros, porque é preciso quem ande lá fora a angariar negócios e cá dentro o da Administração Interna, porque é preciso pôr os labregos na ordem. Tudo o resto é para privatizar, concessionar, restringir, suprimir. Contratos coletivos de trabalho para quê? Os empregados têm é de negociar diretamente caso a caso com o patrão (se eu é que lhe pago, tem de baixar as calcinhas). O desemprego é ótimo, estes gajos têm-se de deixar de merdas, se não quiserem tenho ali outros 200 à espera que aceitam trabalhar por 300€ mês e estão com sorte porque mesmo assim, não são competitivos com o Bangladesh, lá é só 30€. Pensões de reforma? Porque é que eu tenho de pagar para esses velhos parasitas que não trabalham? E férias? Os gajos não trabalham, temos é de legislar para que a partir dos 70 anos o SNS só dispense a esses improdutivos cuidados paliativos. Cavaco aprovará com certeza, pois não quer criar uma crise. Passos Coelho foi o homem providencial, o messias, chegou com pezinhos de lã para salvar a pátria"- coitadinhos dos portugueses, vão ser vítimas do PEC4, eu cá não vou cortar ordenados nem subir impostos…".Não tem pingo de vergonha, é arrogante, petulante, insensível, não ouve nem respeita nada nem ninguém, as leis para ele são um atrapalho, quando é obrigado a cumpri-las, vinga-se, não tem limites, dá cobertura à criatura abjeta e maquiavélica que nos está a matar como pessoas, como país. O seu mérito é apenas reconhecido pelo alemão, ideólogo da Sra. Merkel. Se apesar de tudo o que nos foi imposto, víssemos uma luz ao fundo do túnel, por mais remota que fosse, ainda se poderia tentar aceitar. Mas não, a recessão aumenta, os melhores de nós abandonam-nos, a dívida externa e o desemprego aumentam e a receita é sempre a mesma: mais do mesmo em maior dose. Como iremos subsistir? A economia agoniza, mas, para que precisam as empresas de crédito se não têm mercado, clientes? Quando perdermos de todo o estatuto de consumidores e batermos mesmo no fundo por onde andarão Passos Coelho e Cavaco? Será que também irão a Paris? As contas ficarão mais uma vez para nós pagarmos, porque eles sairão lindos e airosos do mesmo modo que os crápulas que os antecederam. E Portas, farinha do mesmo saco, com as suas lágrimas de crocodilo "- agarrem-me que senão eu vou-lhe bater". Neste filme faz o papel polícia bom, mas será que ele acredita realmente que as pessoas acreditam que a culpa é só de Passos Coelho? Para a direita radical, colocada numa redoma à prova de crise por Passos Coelho e "sus muchachos", as crises são mais uma excelente oportunidade para ganhar dinheiro. P.S. 1- Qual será o conceito de crise para Cavaco? Penso que crise será apenas quando as vacas deixarem de rir. 2 -Considero que uma das manifestações superiores de estupidez consiste em repetir continuamente o mesmo processo esperando com isso obter resultados diferentes.
Helder Melim