No lugar de um presidente de governo com 39 anos de responsabilidade política, surge cada vez mais um ensaísta e um observador não participante que parece alheado da realidade, que expurga todos os males para além mar, que discorda de tudo, que não tem ideias para nada e que não pensa nem acautela o futuro. Limita-se a acatar com tudo abanando a cabeça em sinal de reprovação, apontando o dedo a Lisboa, embora lhe dê um jeitão a implementação de todas as medidas de austeridade e orientações que lhe chegam à mesa para compensar a falta de liquidez resultante do seu desvario. Ainda há governo na Madeira?

Esta semana ficamos a saber que a culpa pelo novo pacote de cortes na despesa pública é daqueles“fanáticos do regime político” que “querem manter este regime político”. Não os “fanáticos” de um outro regime que por aqui se arrolaram ao cripto do poder ao longo de 39 anos - semeando a subsidiodependência, a iliteracia, a acrisia e a submissão do povo, contraindo dívida até aos 6,3 mil milhões de euros (que se saiba) e escondendo facturas enquanto alimentavam o gamelão da engorda -, mas daqueles desvairados que estão no Governo da República há dois anos e que vêm agora com aquelas histórias de redução da despesa pública e de corte nas gorduras do Estado.

Jardim vê no espelho os "fanáticos do regime político" e atira o seu reflexo para o sítio longe do costume: Lisboa. É a teoria da psicologia inversa. Fala dos seus próprios defeitos atribuindo-os a outros e dando-nos a impressão que o que diz é mesmo verdade. Como se esta burla, este estratagema para povinho ouvir e aplaudir, nos levasse a algum lado. De que nos vale ouvir falsos moralismos e lágrimas de crocodilo do único presidente do governo aposentado no activo que acumula pensão e salário? Teremos mais pão na mesa ao ouvi-lo encher o peito para dizer que “discorda disso tudo”, que o “país já não aguenta mais”, para depois vermos essas palavras vãs caírem no chão da inconsequência, sabendo que a Madeira “não pode escapar” às novas medidas de austeridade, porque “o Estatuto Político-administrativo diz que o regime da função pública é igual ao nacional".

Tal como o buraco nas contas públicas, esta oportunista resignação cultivada pelo desgoverno da Madeira é condenável porque alonga a nossa apreensão. É óbvio que o Governo Regional pode em tempo oportuno sugerir propostas para corrigir os erros e excessos da Administração Pública Regional e do seu sector público empresarial, contribuindo para trilhar o seu destino e construir um futuro mais autónomo. Mas este governo está pré-formatado para esbanjar e reinar. Economizar é um elemento estranho àquele corpo. Ignora que "o que o dinheiro faz por nós não compensa o que fazemos por ele". Depois, faltam ideias, empenho, sentido de responsabilidade e coragem para implementar a sua própria reforma. Além de que é óbvio que dá sempre jeito alinhar nas manobras de populismo barato e ter à mão de semear aquele bode expiatório útil, aquele inimigo externo, para assacar com as culpas e omissões, ocultações e pecados.