Durante alguns anos, o meu trajecto para o local de trabalho incluiu a deliciosa experiência de contemplação dos jacarandás, árvore de porte médio, com folhagem delicada, caule um pouco retorcido e fruto com numerosas sementes. O jacarandá bem podia ser a árvore da cultura, adapta-se a uma ampla variedade de locais, não tolera secas prolongadas nem o frio excessivo, e torna-se mais resistente com o tempo. Outra espécie que também encontramos com frequência na nossa ilha é o eucalipto, árvore com reconhecida importância económica mas que não deixa de ser uma espécie infestante. Esta reflexão, de natureza botânica, bem podia aplicar-se às Políticas Públicas da Cultura e à importância do Estado como garante de "biodiversidade cultural". Emílio Rui Vilar (2007) ex-presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, refere que "as razões para a política de apoio não se encontram fundamentalmente dentro da indústria, mas sim no seu exterior (…) os poderes políticos apoiam as indústrias da cultura por estas representarem não só um complemento ao aparelho educacional, mas também por a Cultura se assumir como uma instância de integração social e de reforço da identidade cultural". Em tempo de austeridade, mais do que fazer cortes, é necessário fazer opções e a falta de dinheiro pode constituir-se como oportunidade para gerir a escassez de recursos com maior eficiência, evitando medidas avulsas, euforias súbitas e investimentos efémeros, sem sistematicidade, coerência e duração. A falta de objetivos poderá não ser impeditivo para a atuação na área cultural, mas é seguramente o caminho mais curto para a fraca estruturação e intermitência de certas atividades artísticas. Uma Política Pública da Cultura não deixa o mercado desregulado e entregue a si próprio, procura antes garantir pluralidade, liberdade criativa e cidadania ativa, até porque não é possível haver indústria sem criadores e sem um ambiente que favoreça a criatividade.

Natércia Xavier - Formadora