As empresas, como tudo que vive, morrem. Há, porém, uma excepção que é comum ser aceite. O leitor já se interrogou sobre a razão pela qual não se deixam falir os bancos? Não são eles empresas privadas, como outras, que por erros de gestão vão à falência? Os detentores do capital de um banco, deveriam sofrer tratamento semelhante a quem transaciona qualquer outro bem. Porém, tratando-se de bancos é um Deus nos acuda para que os pobres coitados não vão à falência. Criem-se impostos, instale-se a fome, mas salvem-se os benditos bancos. O pânico gerado por uma falência bancária é coisa séria. Vou analisar a ténue fronteira entre a má gestão bancária, falência de bancos com pânico social, e as dívidas dos Estados. Num Estado Soberano, com moeda própria, o banco recebe depósitos, que remunera, e empresta a um juro superior, realizando aí o seu lucro. Imaginemos que o gerente de um balcão da RAM propunha à sua entidade patronal o financiamento de uma Sociedade (eufemisticamente chamada) de Desenvolvimento. Um banco responsável perante os depositantes aprovaria? Se o fizesse, deveria ser banido do mercado pela sua irresponsabilidade, pois era público e notório que não se gerariam receitas que reembolsassem o capital e, muito menos pagassem juros. Num Estado com bancos dignos desse nome, quem avançasse com a proposta iria porta fora por decisão da administração e, caso não agisse a Administração, lá estaria a supervisão do Banco Central. Financiar apartamentos a "patas rapadas" leva hipoteca como garantia, mas para todos estes milhões entregues às Soc. de Des., não! Porquê? Nas águas turvas em que vivemos, com a União Monetária muito desunida, ninguém agiu! Os eleitores votaram a contento, avalizando a operação financeira. Há pouco tempo, a Islândia deixou que os bancos fossem à falência. Assumiu-se assim como "Estado-Bandido" ao furar as regras da decência do sistema financeiro internacional. Na defesa daquela opção disse o seu Presidente: "por que razão se considera que os bancos são os lugares sacrossantos da economia moderna? A longo prazo, nas democracias esclarecidas, as pessoas não irão aceitar a teoria segundo a qual deverão pagar para salvar os bancos, isto para os banqueiros poderem usufruir dos respectivos lucros e sucesso, enquanto os cidadãos comuns pagam pelos erros desses banqueiros, através dos impostos e da austeridade." Em contraponto à Islândia, temos o Chipre que, tendo vivido tempos áureos com o dinheiro fácil do capitalismo à moda do KGB, bate, agora, ao ferrolho da Europa a pedir ajuda. O Mundo Financeiro está perigoso. O planeamento fiscal agressivo é moda nos diversos Estados, num enorme carrossel, em que A paga a B e este a C. As transacções sucedem-se até chegarem a quem não paga seja a quem for. Os alemães com esta brincadeira, num ano, perdem 1.000 milhões de euros de impostos sobre lucros. Os outros Estados Europeus também têm disto. O sistema financeiro internacional vai ter de olhar para esta situação com olhos de ver, pois não é legítimo que apenas os rendimentos do trabalho paguem impostos. O Euro vive um mau bocado pelos desajustamentos do sistema financeiro, mas o marcar passo da União Política, ocorrido com a saída de cena de Jacques Delors, deixou pesadas marcas. Inglaterra, inserida na união política, não aderiu ao euro e teve, em Margaret Thatcher, uma acérrima defensora dos contribuintes britânicos, ao discutir o contributo do seu País para o orçamento comunitário. Que explicação daria para cobrar impostos que seriam gastos, sem controlo, por outros? Tudo se resolvia com demoradas negociações. Mrs. Thatcher - com Reagan - ajudou na criação de regras que permitem a circulação do dinheiro em busca da melhor tributação. Destes dois "ventos", (desregulamentação e não aprofundamento da União Política na Europa) semeados há vários anos na Europa e no Mundo - potenciados por acontecimentos como o fim da URSS - trazem-nos as tempestades actuais. À União Monetária urge defender a credibilidade do euro. Importante tarefa que passa por rigorosas medidas de controlo orçamental, como em qualquer estado que tenha moeda própria. A União Política Europeia tem de voltar a ser causa motivadora. A Finlândia, país com metade da nossa população, e, contas equilibradas, aposta no Euro. Disse-o o Primeiro-ministro. Porém, não está interessado em arranjar dinheiro a quem o desperdiça, também o disse. O PM finlandês, tal como Thatcher, não pode pedir aos seus concidadãos impostos para serem entregues a perdulários.

Gaudêncio Figueira