Lembro-me, em tempos não muito longínquos, das cerimónias de pompa e circunstância do dia 1 de Maio. Falo do que vi em tempos e do que vejo agora. Ora, militares com as suas vestes pomposas, luvas brancas, botões reluzentes, botas engraxadas e as continências intermináveis. O hastear e o recolher da bandeira das quinas, que outrora carregava cores mais vivas e menos desbotadas. Mas, sem mais demoras ou nostalgias de infância, chega a ser irónico lembrar o trabalhador no dia 1 de Maio. Digamos que é uma espécie em extinção, cujo extermínio tem sido em massa nestes últimos anos. Esta espécie que vai desaparecendo a olhos vistos tem sido substituída por uma outra que agora não me lembro do nome científico. Soa, quase sempre, a latim e a intelectual. Julgo que está relacionado com o desemprego involuntário que é praticado de livre e espancada vontade. Mas, sinceramente, se eu não me lembro do nome, muito menos das camadas políticas, desses pobres que tanto trabalham para nosso sustento! Sem querer perder o fio à meada ou falar de uma espécie que está nos seus fins… afinal de contas isso não interessa nada. Nesse final de dia vi um soldado retirar a bandeira com o seu uniforme do quotidiano, sem cerimónias e sem público… a não ser eu, ao fundo da varanda recôndita. A bandeira atirou-se ou foi atirada lá do alto e tombou em direcção ao chão. Com uma sacudidela retirou o pó do instante. Dobrou-a. Aliás, não foi apenas a bandeira que tombou. Não sei o que é pior: tombar no chão ou estar a meia haste. Afinal de contas até estamos de luto por um país que fenece. Enfim, uma bandeira desbotada e um futuro hipotecado por 6 mil milhões de euros. Uma merreca…

Fernanda Castro - Colaboradora da AAUMa