A propósito dos modelos educativos e das avaliações, cada vez mais centradas em exames escritos, desde a tenra idade, só posso ficar indignada. Foram várias as vezes que manifestei a minha opinião sobre o ensino e os modelos educativos, e não tenho qualquer dúvida que as avaliações atuais, sobretudo ao nível do 1º e 2º ciclo, são absolutamente despropositadas. O que se pretende afinal avaliar, numa horita e tal, após quatro ou seis anos de ensino? Se o objetivo fosse valorizar o potencial de cada aluno, não só ao nível das competências cognitivas, especificas para uma aprendizagem formatada, mas também o potencial criativo e de expressão, para tantas áreas fundamentais na vida, o caminho não seria decerto o atual. Não tenho dúvidas de que algumas escolas e muitos professores conhecem o caminho, e estão preparados para o percorrer, o problema são os condicionalismos exigidos pelo sistema. Quem consegue traçar planos educativos globais e abrangentes, quando sabe que a sua avaliação depende de variáveis rígidas e inflexíveis. A criatividade no ensino, quer do ponto de vista do aluno, quer do ponto de vista do professor, está constantemente a ser ameaçada por programas pouco estimulantes e de interesse, médio/ fraco, para a maioria dos envolvidos. Dá a sensação que já estivemos mais perto da mudança e que voltamos para trás. Tenho sérias dificuldades em entender o que falha. Não faltam pedagogos com ideias, e boas ideias, professores experientes e criativos, professores, em início de carreira, com mestrados excelentes, baseados em intervenções práticas devidamente avaliadas, e tantas, tantas, outras variáveis. Mas na verdade não se consegue avançar. São inúmeras as experiencias completamente falhadas, tentativas frustradas, sem resultado prático, que parecem saltitar do papel para a sala de aula não conseguindo, nunca, sair do papel. Qualquer coisa como, seria interessante se…, o problema é sempre o se. Inúmeros ses, que esvoaçam em culpabilidades, sem alvo definido, como se alguém disparasse, mais ao menos ao acaso, aguardando pelo grito da vitima. Pois bem, sendo as vitimas sempre as mesmas, alunos e professores, e por vezes alguns pais, as decisões continuam a saltar de cabeças pouco organizadas e dotadas de saber teórico e prático, em matéria de educação no séc. XXI. Alguém me explica o interesse da realização de reuniões de pais, para alunos do 1º ciclo, para discutir as normas de execução dos exames, dos seus pequenos artistas de palmo e meio. Se podem ou não escrever com lápis, como devem usar a caneta, se apagam ou riscam o que se enganam…, alguém me explica, o que é isto? Crianças que todos os dias antes de dormir, deitam a cabeça na almofada a pensar alto: Mãe, não te podes esquecer do meu cartão de cidadão, e do lápis e da caneta… E ainda acordados, a cair de sono, continuam a pensar, e se eu me esqueço de qualquer coisa, que não me devia esquecer. Será que sou burro, se não me conseguir lembrar, e os meus pais e os meus professores, irão zangar-se comigo… Valerá a pena esta loucura. Dias e dias de preparação para os exames, nervoseira em toda a gente, lápis e canetas por todo o lado. Aqui posso usar lápis, aqui caneta, aqui, lápis, aqui caneta... Acho inadmissível esta perda de tempo e de energia, tão mal aproveitada. Mas porque será, que mesmo quem não concorda, aceita esta tortura? Dá que pensar. É verdade que andamos todos cansados e distraídos com este país em convulsão, mas convenhamos que a educação é um pilar que deve ser construído por quem sabe, e quem sabe não pode ter ideias destas. Citando João dos Santos, um mestre na arte de educar, "O brincar escapa aos adultos que frequentemente o vêem como algo separado do aprender, o que é não só absurdo como abusivo e cruel." A Caminho de uma Utopia…Um Instituto da Criança, pág. 104 "Aprender, é investigar e conhecer através da própria experiência adquirida." "Aprender é sentir, participar e aceitar a lei natural e a lei do grupo humano." Ensaios sobre Educação I, pág. 42 Dá mesmo que pensar…
Manuela Parente - Psicóloga