A cabeça lançada ao céu. Jogada na impertinência juvenil trocista. A sedução pueril. Os campos verdejantes. Os cabelos. Em tranças, presos em rabo-de-cavalo, soltos ao vento ou naufragados pelo aconchego de um lenço florido. As sandálias. Enfiadas nos dedos dos pés. E uma pulseira de prata no tornozelo. O movimento pisava a superfície da estrada de areia. O pó. Começava a levantar uma nuvem. Os rumores. Os olhares percorriam o horizonte e esbarravam uns aos outros. Tropeçam alto. Romarias…
Há lábios que se guardam num beijo. Colados aos nossos. Tocamos-lhes cada vez que tocamos com os dedos na imagem do passado. Ele ainda está a beijá-la. Ela floreava com os braços no ar, como se procurasse alcançá-lo. O rosto ausente dele. Na superfície do desejo existe apenas o sonho. Ela antes ansiava pelo choro. Quando abria os olhos e ele não estava ali.
Há beijos que trazem o sabor a mel. Outros suspendem a alegria. Na amargura. Inclina-se para a dor.
Nesse ano, ele não podia ir. Nesse ano, sentiu-se abandonada. Por entre a multidão nos dias poeirentos. Descalçamos os sapatos. Enfiamos os pés na terra. Esperamos que anoiteça. Para desaparecer. A solidão é insustentável. Na escuridão existimos um bocadinho menos. A dor deixa de ser ver. Basta um olhar para iludir a paixão. E fugir ao vazio. Nesse ano, porque ele não tinha podido ir, e porque tinham decidido que não iam ficar presos a uma recordação de Verão, decidiu que ia ficar livre. Há momentos em que estar livre é perder-se. Sentiu a traição sem ele saber. Nesse ano, o mundo acabou um bocadinho mais depressa. Ela não deu por nada. Estava calor, havia sol. Tem a imagem vaga de se deixar ir por uns olhos que se inclinavam, para a beijar. Era já passado. Não tinha a que se agarrar. Há momentos em que estar livre é perder-se. A solidão pesa sempre mais que imaginamos. Há pessoas para quem a solidão é leve…esvoaçam…
Dos 14 para os 15 anos o corpo mudou. Ganhou formas, um peito espevitado que sobressaía no corpo magro, por baixo da t-shirt leve. Tinha a pele rosada de menina, com os ossos das costelas a fazer sobressair uma elegância quase a roçar a anorexia. Era muito magra. Mas estranhamente bonita, com ar frágil, quase débil. Não é que não comesse de todo, apenas a comida era uma das suas últimas prioridades. Desde muito pequenina. Tinha o cabelo comprido, castanho claro e uns olhos de amêndoa que adoçavam os dias de chuva quando se iluminavam num sorriso. Apesar do corpo, tinha uma expressão terna, infantil. Apetecia abraçá-la. Embrulhá-la e levá-la para casa. Tomar conta. Apetecia colhê-la nos braços, passar a mão pelo rosto pequeno e beijar-lhe os olhos. E agora falava de flores brancas. Ele jogou-lhe os olhos de ternura. E desconfiança. Mas não a abraçou. É uma criança - pensou. Mas essa promessa de beijos estava já no ar. Nos lábios dela que atraíam os dele. Ele continha-se. No intervalo das actuações, riam em cumplicidade. Divertiam-se sem se largarem. Abraçados. Ele a fazer-lhe festas. Ela a devolver-lhe carícias. Foi preciso chegar à última noite, ao último concerto, que confessou-lhe num tom imperativo” Quero beijar-te. “ Os lábios a estremecer. O corpo inquieto. Num arrepio.
Há beijos que trazem sabor a mel. Ela inclina-se para a dor. Basta um olhar para iludir a paixão. E fugir ao vazio. Ela tem a imagem vaga de se deixar ir por uns olhos que se inclinavam, desarmantes, para a beijar. Comoveu-se. Era já passado. Não tinha a que se agarrar.
Há lábios que se guardam num beijo. Colados aos nossos. Tocamos-lhes cada vez que os de dos passam na imaginação do passado. Ele ainda ali está. Nos seus lábios. A beijá-la. Ela floreava com os braços no ar, como se procurasse alcançá-lo. O rosto ausente dele. Na superfície do desejo existe apenas o sonho. Por entre a multidão, nos dias poeirentos. Descalçaram os sapatos. Enfiaram os pés na terra. Esperam que anoiteça. Para desaparecer. A solidão é insustentável. Na escuridão existimos um bocadinho menos. A dor deixa de se ver. Ele quebrou a promessa no ano seguinte quando não apareceu. Estava quente em Barcelona. Há beijos que não se esquecem.
Havia nela a perda da inocência. Nesse Verão, quando regressou a casa, vinha transformada. Ninguém comentava nada. Os amigos chegavam-se a ela. Faziam-lhe uma festa no rosto. E mais nada. Um estranho silêncio. No meio do campo, por entre o acampamento, com pernas à mostra, as roupas minúsculas, os pés descalços e os cabelos selvagens… Quero voltar para Lisboa. Há ruas mais amigas. E não queria esquecer. Há memórias que não podemos largar. Agarramo-nos a elas como tesouras. E se as perdemos, deixamo-nos desamparados. Foi preciso mais um ano, muitas fugas, muitos erros para decidir que não podia escapar mais. Era ela. Só podia. A menina que falhara-lhe das flores brancas. Escapar era evitar a hipótese de ser feliz. Há dias em que acordamos e, sem saber porquê, decidimos que não podemos esperar mais. O tempo escapa-nos. Houve um dia no Verão em que ele acordou assim. Impaciente. O nó na garganta. A imagem. A praia. O beijo inocente. De despedida. Os olhos dela. Nos braços dele. Nesse dia, foi-lhe mandando SMS. “ Saudades “. “ Preciso de te ver “. “ Penso em ti”. “ Qualquer dia vou ter contigo”. “ Sentes a minha falta? “. Trocaram breves palavras. Ficaram por se falar mais tarde. Ela pedia tempo. Precisava pensar. Eles perdiam tempo. Ele ficou a tremer. À espera. Ele estava em Madrid. Ela estava em Lisboa. Ele ia para Bruxelas. Ela ia para Lecce. Ele estaria em Lisboa lá para o fim do ano. Ela também. Talvez…
O mundo lá fora. O mundo lá fora fica lá fora trancado. O mundo cá dentro é sempre a abrir.
Olha em frente. Não vê ninguém. Apenas uma parede. De repente, a porta abre-se e sai alguém. As pessoas passam. Em grupos, sozinhas, aos pares…Arrastam malas de viagem. Com rodinhas. O mundo que ela observa não tem som. As pessoas andam, mas aqueles passos não produzem ruído. Nem as suas vozes. É um vazio oco que as portas abrem e fecham. Não há sequer um rumor produzido pelas outras pessoas que encontram pelo caminho, dos abraços e beijos que dão à chegada. Ali ela sente-se bem. Ninguém a conhece. As pessoas passam apressadas . Procuram alguém. Ou sonham escapar. As pessoas passam apressadas sem dar por ela. Ri. Quando somos pequeninos basta taparmos as mãos para ficarmos invisíveis. Crescemos. No aeroporto. Dali, daquela invisibilidade, pode dar-se ao luxo de olhar atentamente as pessoas que passam. Repara na roupa, na mala, que rola pelo chão…As olheiras, expressões cansadas…Os passos avelhentados, as pernas arrastadas…Ou os sorrisos alinhados de quem anda com a cabeça nas nuvens. Para esses tudo combina. A mala de viagem condiz com a roupa, com as cuecas e até com a bolsa de maço de cigarros que guardam dentro do casaco… Ela está ali a tentar viver novamente. Mas a tentar não perder o que lhe é importante. Há coisas que temos de guardar se não queremos morrer. Não para sempre. Há pequenas mortes que nos ajudam a respirar melhor. À espera. Esperava aquele momento em que a porta se abre e surge um rosto conhecido. Para ela sorrir. Para lhe correr para os braços. Para se beijarem. Como se estivessem combinado. Queda do corpo. Queda da alma. Ela ouve-o. Escuta quase o que ele fala, em ritmo doce, a voz fina. Sente a pulsação. Sente a vertigem. Sente o mergulho duma promessa. Salta. Ele intrigado. Ela reconhece-lhe esse tom do rosto. Os olhos semicerrados que a encaram a tentar perceber . Percebe que não a reconheceu imediatamente. Está confuso. “ Estás bem? “ . Ela baixa os olhos. A troca de frases terminara. Terminara a brincadeira. Terminara o riso. Regressava o peso. Agora pousavam entre palavras. Hesitavam. Refugiavam-se na fuga do olhar. “ Não sei…”. Ele tocou-lhe nos cabelos com a mão direita e confortou-a “ É bom ver-te . A sério. Mas é espantoso que estejas aqui. O que estavas a fazer ?” Há momentos em que devemos calar. Mas ela não sabe fingir. A voz dispara-lhe sempre o coração. “Estava à tua espera”. “ Sabias que eu vinha?”. O rosto dela lança-se ao chão para esconder o olhar, como se se pudesse…”À minha espera ?” Ela não sabe como explicar. Pode tentar… “Lembras-te que me disseste que vinhas todos os anos passar uns dias ou semanas a Lisboa ?” Não chega. Ele ainda não está a perceber. Espera. “ Então, habituei-me a vir aqui . Podia ir para um sítio qualquer. Porque não vir para aqui. Ler. Aproveito para ler. Quero tornar-me culta. Olha: Os Maias. Basta um livro e um lugar para estar. E enquanto lia esperava por ti..” Ele estava atónito. Não queria ouvir “ Todos os dias?” Dito assim, parecia-lhe quase uma ofensa. “ Não claro que não. Vinha só umas horas ao fim do dia…E não eram todos os dias, era quando podia. Não importa agora. Posso explicar depois…O que importa é que te encontrei…Preciso de saber porque não foste ao concerto. Deixaste-me só…Pensei que não te ias esquecer “. Há palavras que nos fazem desperdiçar o estar juntos. Ele ganha consciência disso. Comove-se. O rosto declina sobre ela. A ternura da saudade. A mão retoma a vida por entre os cabelos. “Não pude ir. Custou-me. Mas…aconteceu muita coisa. Sofri com saudades tuas. Com o tempo explico”. Dizem que têm que estar juntos, finalmente juntos, dizem que os dias correm depressa, dizem que agora está tudo bem. Surgem, logo ali, promessas, mas que eles não sabem, e logo ali ele envolve-a pela cintura, os olhos dela fecham-se ao exterior para mergulhar mais profundamente naquele abraço, e sente o corpo dele e os lábios, que se aproximam do beijo num só sopro, numa cidade que desfaz a carne em desejos esquecidos sobre rostos anónimos. Ela sente que envelheceu mais depressa, naquele ano sem ser tocada por ele. O medo de se despedir devora-lhe o coração. Se ele disser adeus, ela sabe. Prepara-se talvez para morrer. Ele aperta-a um pouco mais. Nos seus braços. Para nunca desaparecer num só sopro. Há beijos que não se esquecem. Há momentos em que as palavras são intrusas. Ela quase se desvanece. Nos braços dele. É assim que gosta de estar. No interior dos braços dele. A fuga desejada da realidade. A que mais anseia. Antes que o corpo se desvaneça em cinzas. As mãos dele abertas, sobre as costas dela. Queria sorrir quando entrares em mim. Diluir-me em líquido. Ela é criança. E no entanto…já ninguém é criança aos 16 anos…Os dois: à procura de reconstruir os sinais da paixão. Vivos ao mínimo suspiro. É como se estivessem sozinhos. O amor, assim tão grande não cabe no corpo. Ela encosta-se, ainda mais um pouco, para não cair. Ele aperta-a tanto que dói aos dois. Há dores que saboreamos. Com prazer. Ela tenta. Tenta instalar-se naquele sentir-se viva. Mas o medo, o medo do fim, o medo da morte, o medo da morte do amor, o medo do desengano, o medo do desamparo, devora-a. A insegurança embala-a e deixa-se ir num sono profundo. Como se já soubesse. Como se desmaiasse. Como se já soubesse.
De que te lembras? O que guardaste para ti, como recordação do teu passado, que faz de ti o que és hoje? Quem são os outros para ti, quem faz de ti o que és hoje? Às vezes distrai-se. Mas é só por algum tempo. Há sempre um acontecimento, uma imagem, um filme, um nada de nada, que a leva de retorno a esse passado. Naquele momento só tinha questões. As respostas não pousavam nela. Nesse ela ano não pode ir . Ele esperava.
A música aproxima as pessoas. A música desperta memórias. Memórias que guardamos guardam memórias de outras pessoas. Muitas destas pessoas, de quem guardamos memórias, não conhecemos realmente. Por vezes são essas memórias das pessoas que não conhecemos que marcam mais do que muitas que conhecemos pessoalmente. Sentia a mesma falta, mas a saudade era mais doce, mais suave, mais ternurenta. Era menos ferida e mais a lenta valsa e ia saltitando a cantarolar.
“ De manhã, que medo, que me aches feia! Acordei tremendo deitada n´areia Mas logo os teus olhos disseram que não, E o sol penetrou no meu coração. Vi depois, numa rocha, uma cruz, E o teu barco negro dançava na luz Vi teu braço acenando, entre velas já soltas Dizem as velhas da praia, que não voltas:
São loucas! São loucas! (…) “
- Linda - disse a amiga - Mas essa música é tão bonita. Apetece chorar. - É a de que mais gosto. Parece que fala comigo. - De quem é ? - Chama-se Barco Negro. A letra é de um grande escritor : David Mourão-Ferreira.
Renata Camacho