Parece que esta gente que nos governa não sabe fazer outra coisa. Se falham as previsões, aumentam os impostos. Se não entram receitas, chamam os contribuintes. Se falham eles, pagamos nós. E se, mesmo assim, não chegar a receita é a mesma: paga o povo. Trabalhadores, reformados, estudantes, levam todos pela medida grande. E depois, quando têm de anunciar estas medidas completamente contra quem os elegeu, os governantes vestem aquele ar pungente e discursam ao País. Foi isso que fez ontem Pedro Passos Coelho. Até ensaiou aquela tirada à estadista em desuso ao enfrentar câmaras de filmar e dizer “portugueses”, num tom grave. E é grave a situação, de facto. Mas o mais grave, e triste, é perceber que aquele que nos falou ontem à noite não foi o nosso primeiro-ministro. Era antes um secretário de Estado de terceira categoria de um grande país europeu. O entusiasmo com que se referia à forma como os nossos parceiros do euro nos olham foi bem maior do que as tentativas de depositar esperança no rectângulo e ilhas adjacentes. A tentativa de nos aproximar do exemplo da Irlanda foi mais visível do que quando voltou a dizer que o fim da austeridade está próximo. Assim, não vamos lá. Assim, ajoujados com uma carga de impostos e outras medidas cegas, ficamos pelo caminho. Assim, pagam os mesmos. Mais uma vez. Por aqui, as coisas não são diferentes. Há erros de palmatória, há crise séria, há desemprego assustador, há falta de tanta coisa básica, há ‘fome de fartura’ e alguns dos que governam continuam num mundo só deles, completamente distantes da realidade que tantos madeirenses conhecem. Dois casos desta semana que ajudam a perceber melhor esta triste realidade: o regresso ao mar e o processo, mais um, a jornalistas. A inesperada vontade de o Governo valorizar agora o que desprezou há poucos anos é estonteante. Não pela opção, que parece válida, mas pela forma como se fazem as coisas. Ou pelo menos pelo facto de ser agora um secretário regional a ter de emendar a mão ao presidente que fez de tudo para escorraçar os surfistas do Jardim do Mar. Tanto fez, que o conseguiu em larga medida. Mas agora, que é preciso imaginação, o mesmo Governo é obrigado a chamar quem percebe do assunto para ver se ainda é possível remediar o que foi ostensivamente mal feito. Pagamos para fazer um erro e vamos pagar agora para ver se é possível recuperar o erro. Oxalá seja, mas se o for também vamos ter de pagar para voltar a por quase tudo como estava. Já o caso dos processos a jornalistas revela o recorrente desejo de manipular, de ameaçar, de assustar e pressionar de forma desenvergonhada. Ainda mais tratando-se de um de uma opinião, como foi o caso do artigo publicado esta quinta-feira, neste mesmo espaço. Admite-se que os visados não gostem das críticas, mas daí a desbaratar dinheiro com advogados amigos que apadrinham processos vazios de conteúdo e de interesse vai uma grande distância. E só se compreende por uma única razão: quem paga estas brincadeiras não são os governantes, são os governados. De uma coisa podem os portugueses, e os madeirenses em particular, ter a certeza: dê por onde der, quem paga são os trabalhadores, os pobres, os jovens, os reformados. Quase 40 anos depois descobre-se que nos enganamos na letra de Grândola. Onde se lia: “O povo é quem mais ordena”, deve passar a ler-se: “O povo é quem mais paga”.