
A VII Conferência Anual do Turismo, que decorreu ontem no Funchal, revelou um conjunto de oportunidades e ideias a aproveitar no domínio do mar e deixou a certeza que é esta é uma das portas para a Madeira e o país saírem da crise, a par do desempenho do sector turístico em que está integrado. "O Turismo é a actividade económica nacional que, de momento, apresenta as melhores expectativas de crescimento, as melhores oportunidades de investimento e as melhores pistas para o emprego", sublinhou o secretário de Estado do Turismo, Adolfo Mesquita Nunes, no fecho da iniciativa promovida pela delegação regional da Ordem dos Economistas.A Conferência deixou várias pistas para o investimento no mar, particularmente algumas oportunidades para o mercado regional. A título de exemplo, Alexandra Leitão, investigadora do Instituto do Mar e da Atmosfera, mostrou como a Madeira tem todas as condições para se expandir na área da aquacultura. A técnica desafiou mesmo os empresários a aproveitarem os financiamentos existentes, visto há mercado garantido, por exemplo, para as ostras: "A produção francesa está muito debilitada e há uma grande procura em Portugal". A distância da Madeira em relação ao espaço continental europeu, segundo Alexandra Leitão, não constitui entrave, pois "os franceses estariam dispostos a colaborar no transporte".Governo Regional já gosta do surfO próprio secretário do Ambiente e Recursos Naturais, Manuel António Correia, assumiu que o Governo Regional está a preparar um documento de Política Marítima Regional, com acções e metas específicos para o nosso arquipélago, o principal dos quais será o aumento em 50% do peso das actividades do mar na economia madeirense (actualmente ronda os 2,5%).O governante revelou que nos próximos "4 ou 5 anos" o executivo regional pretende tornar a Madeira "um território de referência a nível mundial para actividades ligadas ao mar e à serra" e anunciou algumas acções que estão a ser preparadas no sentido de concretizar tal objectivo: a criação de uma reserva mundial de surf, com eventual "recuperação de ondas que foram afectadas" por intervenções na costa; lançamento de um evento anual ligado ao mar "semelhante à Festa da Flor"; e publicação para breve da carta dos desportos de natureza.Sobre a citada "recuperação de ondas", coube ao velejador João Rodrigues especificar que os planos do executivo madeirense passam por estudar eventuais intervenções que possam restaurar as condições para a prática do surf no Lugar de Baixo e Jardim do Mar. Segundo o orador, das três ondas de classe mundial que a Madeira perdeu no passado devido a obras no litoral, apenas a da Ponta Delgada é mesmo irrecuperável.De resto, Manuel António Correia enquadrou a estratégia para o mar num quadro mais vasto, ligado ao sector do Turismo, sendo que este "será absolutamente decisivo nos tempos mais próximos" para a economia regional, pois só o seu crescimento poderá gerar entrada de receitas externas que poderão compensar a diminuição das transferências do Orçamento de Estado e da UE.Ainda a respeito deste sector, o secretário classificou como "um erro magistral" a subida da taxa de IVA na restauração e pediu ao bastonário da Ordem dos Economistas, Rui Leão Martinho, para que faça 'lobbie' a nível nacional para corrigir esta medida do Governo da República.Eduardo Jesus alerta que Turismo cresce no mundo mas definha na RegiãoO presidente do secretariado regional da Ordem dos Economistas, Eduardo Jesus, alertou ontem, na abertura da VII Conferência Anual do Turismo, que relativamente ao ano passado "todos os indicadores da Madeira são negativos", isto quando a nível mundial o sector cresceu 3,8% em 2012 e atingiu-se pela primeira vez o número de mil milhões de turistas.Perante as centenas de participantes no evento que decorreu ao longo de todo o dia de ontem no Centro de Congressos (Casino), o economista explicou que os números positivos apresentados oficialmente a nível regional não têm em conta que o "sector encolheu em número de camas e de quartos", pelo que, na realidade, a Madeira registou uma quebra naquele que é o motor da sua economia.Numa intervenção que anunciou como sendo de crítica construtiva, Eduardo Jesus observou que o turismo na Região passou "da navegação à vista para uma navegação à deriva" e alertou que o sector "vive há anos sem uma estratégia". Possivelmente em resultado disso, os preços reais por quarto hoje praticados caíram para níveis de 1988.De referir que Eduardo Jesus foi particularmente elogiado pelo bastonário da Ordem dos Economistas, Rui Leão Martinho, por ser o principal rosto da organização de uma Conferência Anual do Turismo que já vai na sétima edição e continua a mobilizar centenas de participantes.
Governo da República facilita licenciamentos no litoralO Governo da República está a preparar medidas para "facilitar os licenciamentos na área do litoral", anunciou o secretário de Estado do Turismo, Adolfo Mesquita Nunes, ontem à tarde, à margem da VII Conferência Anual do Turismo, promovida pela Ordem dos Economistas na Madeira."Presumo que já terão ouvido várias queixas nesse sentido, porque o litoral é gerido por várias entidades ao mesmo tempo, o que dificulta o aproveitamento das várias actividades que aí se desenvolvem", referiu o governante do CDS, que anunciou ainda que o Plano Estratégico do Turismo aposta no sector dos cruzeiros, que assume particular relevância para as cidades de Lisboa e Funchal.Quanto ao pedido formulado de manhã pelo secretário regional do Ambiente e Recursos Naturais para que o Governo de Lisboa alterasse o quanto antes a taxa de IVA para a restauração (está na taxa máxima), Adolfo Mesquita Nunes disse que o executivo nacional vai esperar pelas conclusões do grupo de trabalho constituído para estudar os custos de contexto no sector do turismo e que deverão ser conhecidas no final de Julho. Até lá, não deverá haver mexidas na taxa de IVA para a restauração.
Porto Santo é mais-valia para a MadeiraO representante da companhia MSC Eduardo Cabrita aconselhou ontem as autoridades regionais a apostarem cada vez mais no Porto Santo como destino complementar da Madeira nos itinerários das viagens de cruzeiro. "Pode ser uma mais-valia e o seu clima e a sua praia podem ser complementares à Madeira", declarou o especialista perante os participantes na VII Conferência Anual do Turismo, organizada pela Ordem dos Economistas.Eduardo Cabrita elogiou as condições oferecidas pelos Portos da Madeira mas lembrou que o sector dos cruzeiros é muito dinâmico e concorrencial. "Haifa (Israel) está em concorrência com o Funchal para cruzeiros a partir de Barcelona", exemplificou.Depois de vários anos de crescimento em número de navios e passageiros no porto do Funchal, as estimativas apontam para a estabilização dos indicadores em 2013. Mas no entender dos analistas da MSC, uma das maiores companhias do sector, há boas perspectivas de crescimento nos próximos anos, pois os cruzeiros continuam em expansão a nível internacional.Ainda assim, Eduardo Cabrita lembrou que a posição geográfica da ilha da Madeira, a meio do Atlântico, não permite captar um número de escalas como outros portos situados em pleno Mediterrâneo.Governo pede agora ajuda a quem já chamou "pé-descalço"O Governo Regional pretende criar uma Reserva Mundial de Surf. Um estatuto que protege as praias de serem destruídas que cabe à organização Save the Waves Coalition institucionalizar num reconhecimento semelhante ao da Unesco com o seu World Save Resorts.A novidade foi dada a conhecer pelo secretário regional do Ambiente e Recursos Naturais na VII Conferência Anual do Turismo. O curioso é que em 2002, o Executivo de Alberto João Jardim criticou duramente dirigentes da Save the Waves Coalition e ainda surfistas estrangeiros que participavam num protesto contra a volumetria do enrocamento na costa do Jardim do Mar, considerado nessa época como o Havai da Europa.O governante chegou a apelidar de "pés-descalço" e "pseudo-ambientalistas zaragateiros", numa campanha fomentada pelo DIÁRIO, disse na altura, em comunicado.O galardão internacional, para além de arrastar centenas de surfistas a este tipo de intâncias balneares consegue potenciar economicamente toda a área envolvente através de eventos desportivos. É o que acontece com a zona da Ericeira, no Continente. Desde 2011 passou a usufruir o nome de Reserva Mundial de Surf ganhando projecção em tempo de crise.Agora, é o Governo Regional tentar emendar a mão pedindo apoio na criação de idêntico estatuto à Ericeira aos dirigentes que participavam nesse protesto de há 11 anos.Pedro Bicudo, da Associação SOS Salvem o Surf, era um desses elementos e que foi recentemente "convidado pela Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais para analisar se a Madeira tem ainda condições" para recuperar "ondas que foram afectadas", conforme disse o próprio. Outro dirigente era Nélio de Sousa, membro da Save de Waves Coalition que ontem ficou a saber da novidade. O calhetense recorda o episódio, mas prefere não "repisar os acontecimentos do passado". O importante, sublinha, é verificar que "o Governo reconhece que tínhamos razão para aquilo que alertávamos e para o potencial das ondas e que poderia transformar-se num potencial económico ou até turístico. Era isso que estávamos a tentar preservar".Agora ainda é possível, mas poderá ser tarde. Não escondem o entusiasmo, mas, ao mesmo tempo, não disfarçam alguma apreensão.Hoje, diz o membro da Save the Waves, as "ondas foram fortemente afectadas por erros que se realizaram na costa", frisa, apontando maus exemplos no litoral da Ponta Delgada e do Jardim do Mar.Por seu turno o presidente da Associação SOS Salvem o Surf defende ser "necessário efectuar estudos" no sentido de aquilatar a viabilidade da iniciativa, anunciada ontem por Manuel António Correia.Por outro lado, Pedro Bicudo revelou ao DIÁRIO ter estado recentemente na Madeira, juntamente com mais três elementos da entidade que representa. Diz que dois deles ainda cá estão "a convite do Governo para poder avaliar se ainda é possível ou não concretizar esse objectivo".O dirigente mostra-se satisfeito por assistir ao interesse do Governo Regional em querer apostar na preservação da modalidade, todavia confessa que muito trabalho terá de ser efectuado.
Uma década à espera da tecnologia para explorar fundos do nosso marO vice-presidente da direcção de exploração do grupo canadiano Nautilus Minerals, Jonathan Lowe, disse ontem, no Funchal, que a actual tecnologia não permite aproveitar os recursos minerais de um fundo marinho com as características existentes na Madeira e que será necessário esperar uma geração, de 5 a 10 anos, para que tal seja possível. O especialista falava na Conferência Anual do Turismo e em resposta a uma questão colocada pelo investigador da Universidade da Madeira Thomas Dellinger. Jonathan Lowe explicou que o seu grupo está neste momento mais focado nos recursos minerais dos Açores, pois naquele arquipélago os vulcões subaquáticos estão em actividade e libertam minerais. Na Madeira a situação é diferente. Haverá minerais no fundo oceânico, mas cobertos por sedimentos, sendo que a sua exploração e aproveitamento exigem tecnologia ainda não disponível.A estas limitações tecnológicas, o secretário de Estado do Mar, Manuel Pinto de Abreu, acrescentou outra dificuldade: "Nós conhecemos muito pouco ainda da realidade do fundo dos nossos oceânicos (...) relativamente aos sulfetos metálicos". No entanto, o governante português chamou à atenção que o nosso mar encerra outras oportunidades, nomeadamente no domínio dos recursos vivos, dando como exemplo a aquacultura. "O recurso fundamental a Madeira tem e em abundância, que é o mar", resumiu.

