Bom, talvez seja melhor explicar o que se passa. Por estes dias, os madeirenses andam resmungões, queixam-se dos empresários, dos políticos, dos governantes, enfim, de um certo tipo de endinheirado que se exibe e mostra que tem euros, muitos euros.

Ainda ontem, no autocarro 45, na Nazaré, uma senhora algo exaltada falava com outras duas pessoas, em alta voz, sobre um conhecido figurão da nossa praça, enquanto uma outra quarta, mais idosa, tentava, sem muito sucesso, enfiar a meio da conversa que tinha visto o ‘Zé’ Castelo Branco de fato-de-banho a saltar para dentro de um poço…

Adiante. Para todos ouvirem, ou pelo menos, para os ouvidos de bilhardeiros como eu, a senhora lá foi dizendo que o tal fulano tinha isto e aquilo, que andava com brutos carros, que tinha ‘xis’ empresas, onde pelos vistos trabalhava um familiar da senhora, que tinha sido despedido depois do tal fulano ter fechado a empresa, para depois abrir uma outra.

Indignada, a mulher lá escangalhou a reputação deste tipo de gente, os novos-ricos - ela não usou esta designação, mas este é um diário familiar, por isso, vamos chamá-los novos-ricos - criticando a falta de educação e vergonha na cara de gente que exibe o dinheiro. Ora, é aqui, neste aspecto, que discordo parcialmente deste tipo de reflexão, aliás, muito comum e certamente defensável, contudo, discordo mesmo deste ponto de vista e os meus argumentos prendem-se com aquilo que o povo tem vindo a ouvir ao longo dos últimos tempos, ou seja, que "andamos a viver acima das nossas possibilidades".

Passando a explicar. O povo madeirense tem tido, pelo menos até agora, um espírito de auto-sacrifício inexcedível, esfolando-se a trabalhar para pagar - julga -, as dívidas contraídas por outros ao longo de mais de três décadas. O problema, contudo, não está nisto, ou melhor, está, mas não na totalidade. Ou seja, se andamos a ser ‘comidos’ por todos os lados, através dos impostos impostos (a repetição é propositada) pelo Governo de Passos Coelho e Paulo Portas, e na Madeira pelo Governo de Jardim que 'decretou' a fome e o desemprego de milhares de famílias para pagar os desgovernos do passado, então que aqueles que beneficiam de tudo isto que estejam perfeitamente identificados na sociedade e que se façam ver publicamente.

Julgo que não haverá nenhum madeirense que, no seu íntimo, não saiba quem são os agentes políticos, os gestores, os empresários e afins que têm dinheiro a potes e que estão a tirar partido desta crise. Todos sabem quem é quem na Madeira, todos sabem quem são as pessoas sérias na política, na vida empresarial, etc., e aquelas que não o são, e a maioria do povo, onde se inclui a tal senhora, sabe como é que muitas dessas pessoas têm o que têm. Mas vejamos o seguinte: não será o exibicionismo uma espécie de 'tarefa social' que estas pessoas mais abonadas praticam na Madeira? A questão é provocante, mas antes de 'atirar pedras', pense nisto: se os pobres-dos-madeirenses-pobres olharem para este ou aquele empresário ou político ou gestor e estes não exibirem os brutos carros, os barcos ou os casarões nesta e na outra ilha, ou se não andarem constantemente em viagens para aqui e para acolá, o que é o povo vai acabar por pensar? Que afinal também estão a passar por dificuldades e que são pessoas comuns como os restantes, que vivem em casas ou apartamentos com infiltrações, que têm de carregar o ‘giro’ para andar de autocarro, que têm de trabalhar horas e horas a fio para pagar impostos ‘pornográficos’, que têm de recortar cupões de descontos de produtos para apresentar nos supermercados, que têm de amealhar os cêntimos para pagar as despesas de saúde dos filhos, ‘and so on’, ‘and so on’…

É por isso que a imagem exterior de riqueza de certos figurões, cá e lá, não só é um incentivo para muitos desencostarem-se e fazerem pela vida para tentar - repito, tentar, - ter o um pouco do que outros têm, mas é sobretudo uma forma bem eficaz do povo saber identificar quem é quem na Madeira e sobretudo compreender quem está a ganhar com o suor e a dor de tantas famílias madeirenses.

Em todo isto há ainda uma coisa que me arrelia: sabendo que há gente na Madeira que acumula a reforma e o ordenado, outros que recebem milhares para gerir entidades públicas autênticos-sorvedouros-de-dinheiro-dos-madeirenses, outros que dizem ser operadores privados e ‘montam-se’ em cima do erário, sabendo tudo isto, tenho de reconhecer que realmente há gente a viver acima mas é das minhas possibilidades. E também acima das possibilidades daquela senhora do autocarro 45. E de certeza que acima das possibilidades de muitos dos que estão aí fora. Definitivamente há muita gente a viver na Madeira acima das possibilidades dos madeirenses. Só não sei até quando. O que sei é que eles não desistem, afinal, é ao ver os pobres dos madeirenses que vão buscar a energia para continuar a ganhar dinheiro.