Se é na Madeira tudo se aceita. Este parece ser um modus operandi de um país que fecha os olhos às excentricidades de uma Região que é tanto mais exótica política, social e culturalmente falando do que pelas suas paisagens - de verde e azul- vertiginosas e cortantes.
E é aborrecido, porque a Madeira é assim uma espécie de faz de conta, bonito para se visitar e desfrutar, mas inquestionável no seu estatuto de autonomia cada vez menos autónoma e mais dependente. Um micro-clima de impunidade. Tudo se aceita e nada se estranha ou questiona sobre o que se passa lá longe na ilha esburacada de obra e dívida de Alberto João Jardim.
Há duas coisas que tecnicamente estão fora dos braços tentaculares do jardinismo, a justiça e as forças de segurança, mas só no papel. Ou alguém tem dúvidas de que o presidente do Governo manda mais na polícia na Região do que o Ministério da Administração Interna? Que não se inibe de dar ordens a agentes da PSP para deter cidadãos que o incomodam nas suas inaugurações cada vez menos pomposas, que passaram de grandes obras de engenharia a padarias privadas? Que dá indicações para deixar a lei em stand-by em dias de festarola no Chão da Lagoa no que respeita a limites de álcool, por exemplo?
E na justiça, há muito que se fala de cumplicidades, que nunca ninguém investigou. Sempre se deixou andar até ao dia em que um juiz conselheiro do Tribunal de Contas furou todas as regras e apontou o dedo ao Ministério Público, provocando uma onda de preocupação que começou na Procuradoria-Geral da República (PGR), mas que já está a fazer estragos no Funchal e a provocar baixas. Claro, que, como tudo o que acontece na Madeira, também este episódio teve a sua dose se excentricidade e exotismo, que só à força se acorda um país estremunhado. Daí que o acto quase ‘tresloucado’ (a avaliar pelo comunicado da PGR) do conselheiro, que ousou questionar o proteccionismo em jornais oficiais (ultraje!), possa ter um efeito perverso e acabar como acaba tudo no que à pérola do Atlântico diz respeito (que não seja Festa da Flor e Passagem de Ano): No esquecimento. Não se admirem que se vire o foco para as práticas politicamente incorrectas de Aveiro Pereira e se esqueça o mais importante.
Nada disto é novo para o país, é só excêntrico e o normal na Madeira. Alguém perde o sono em Lisboa com o Jornal da Madeira? Uma aberração a tantas liberdades que se não indigna os de dentro - que pactuam ao aceitar todos os dias propaganda paga a peso de ouro por si próprios (sim, os madeirenses é que pagam com aquele dinheiro que falta para medicamentos nos Hospitais e papel higiénico nas escolas) - também não deveria surpreender assim tanto por não incomodar os de fora.
Gosto da excentricidade. Do exotismo. Mas neste contexto, não obrigada. Nem mais, nem menos, igual a este país desigual, mas que deveria ser, em direitos, liberdades e garantias, unum.