Há uma linha que separa. Não sei se é aquela que se vê ao fundo das Desertas, que para muitos é o fim, para outros o princípio, mas há, de facto.
Não é que a classe política esteja bem vista. Não está, nem para trás da linha, nem para além dela. Há autarcas a cumprir penas de prisão num lado e no outro, por exemplo. E agora não venham os próprios chorar lágrimas de crocodilo pelo descrédito, que a culpa não é de mais ninguém se não deles próprios, enquanto classe e com as devidas excepções, cada vez menos.
Mas há, de facto, uma linha que separa a política que se faz na Madeira da do resto do país.
Não, não é só a linguagem, o nível rasteiro do debate, a fulanização. Isso é a formalização de um ‘modus vivendi’ de anos de uma cultura de liberdade autonómica, que de democrático teve muito pouco. É que não é só o dizer-se uma coisa e fazer-se outra. Issso faz-se cá e lá. Foi o politiquez que inventou a inverdade, que suponho não seja mais do que a mentira em política.
Não são apenas as contradições. É o absurdo que domina a política do varre (às vezes facturas) para debaixo do tapete. É mais do que um paradoxo um líder regional passar a vida a dizer que não se revê num plano de ajustamento que, garante, foi-lhe imposto e depois não aceitar que a oposição tome a dianteira no sentido de mudá-lo. Quantos projectos neste sentido, de vários partidos, foram chumbados no parlamento regional? E quando um deles avança para Lisboa ‘aqui d’el rei’ que já vem tarde e que o executivo já tem tudo em marcha. A começar pelo desemprego que disparou para não mais parar.
Pois que sim, que há coisas que devem ser decididas entre Governos, mas é preciso envolver os partidos da oposição. Explicar-lhes tintim por tintim o ponto de situação de forma a recrutá-los para lutas que são de todos. São da Madeira e dos madeirenses. Mas não, é uma selvajaria, onde o rei leão acha que é soberano e que não tem de dar mais satisfações a ninguém porque ele é o senhor da selva de betão armado. Os leões mais novos (não muito) à espera da sua vez, contestam por fora e lá dentro, no clã, dizem sim. Não se insurgem, o que só mostra que haverá sempre uma linha que separa. Uma linha que se vê quando delegações do parlamento da Madeira e dos Açores vão a Lisboa defender os interesses das suas populações e que devia fazer os primeiros corar de vergonha. São dois níveis distintos.
No meio disto há um cansaço de um discurso gasto e vazio. Lisboa ora é má, ora é dócil, dependo do dinheiro que manda. E da distância a que se está no calendário do dia da festa do Chão da Lagoa. O surpreendente é que isto ainda cola. Cansa, cansa, mas pega. Vai pegando.