Sendo um dos géneros literários com menos leitores e menos tiragens, a poesia, considerada por uns a rainha das artes, faz, e sempre fez ao longo da história, muitos se perguntarem qual será a sua utilidade. Sim, tem, ou terá que ter, a poesia uma utilidade intrínseca? Uma possível resposta, ou início de resposta, poderá ter sido esboçada numa brilhante colectânea de ensaios da autoria de António Ramos Rosa, um poeta maior da literatura universal, intitulada ‘Poesia, Liberdade Livre’ (O Tempo e o Modo, 1962). Aí, o poeta contesta a ideia feita de que a poesia seja mera “evasão” diletante da realidade, como querem os cínicos, os pragmáticos e os racionalistas; para ele, a poesia é o preciso alargamento inaugural de horizontes de nível de consciência, o aprofundamento simbólico, até às raízes do Ser, que nos tornou humanos. O elán poético é o próprio instinto simbólico que conduziu os primeiros artistas-xamãs a desenhar, gravar e pintar nas rochas e nas grutas, criando a Arte e a humanidade nesse preciso impulso primordial. A poesia foi a “realidade aumentada” original que nos permitiu aprofundar a aventura natural humana; a poesia tem, portanto, a “utilidade” que têm o pensamento simbólico e a própria condição humana. Acharão pouco, os editores, os livreiros e os leitores que desvalorizam e desprezam o que os tempos modernos reduziram a mero género literário? Termino com um fragmento de um pequeno poema da minha autoria, com um singelo grito órfico que, penso, será partilhado por todos os poetas que ainda resistem, no deserto da “civilização do lucro”: “No silêncio das noites em que o calor não conduz à perversão dos templos, oiçam os gritos bárbaros e azuis sobre os telhados do mundo!”.
Miguel Santos