
O povo madeirense parece ter elevados níveis de masoquismo no seu código genético. Vive sob uma resignação perturbadora como se tivesse sido injetada uma sobredosagem de apatia e de conformismo. Vive como se estivesse condenado à pena máxima do servilismo. Vivendo para idolatrar deuses na terra. Como se regredisse ao tempo dos seus avós e estivesse a pagar a gratidão divina de viver sob a geada, à beira dos penhascos, rasgando fios de água no duro basalto, carregando às costas rochas sobrantes para emparedar o seu próprio destino.
Parece imposto a elevar a insolência dos outros, seus iguais, que terá de venerar mas que não será sua jamais. Consente que amarrem a sua própria palavra num corredor de silvado, que instalem o pensamento num asilo, para depois ser levado pelos correligionários que pairam na sombra de todos os sítios convertendo favores em votos de urnas e transformando cidadãos em múmias embalsamadas.
Quando se permite o exílio da nossa própria consciência, internamos o conhecimento num asilo. Sobra-nos então o silêncio de um confrangedor confessionário de verdades artificiais imaculáveis e sofremos um bombardeamento de propaganda que nos entra pela caixa de correio adentro e pelos adros das igrejas fora, saindo-nos euros dos bolsos todos os dias ao preço dos olhos da cara. Onde uma máquina de poder fabrica diariamente verdades em tons de branco esclerótico alternado com cor-de-rosa púrpura. Onde seres execráveis se tornam fiéis depositários da nossa vontade e das nossas legítimas aspirações só para manter sustentada no tempo a maior farsa que a história se encarregará um dia de contar: a imbecilização pelo poder manipulador.