O último relatório do Tribunal de Contas, assinado pelo juiz conselheiro João Aveiro Pereira, com acusações graves a alguns serviços do Ministério Público na Madeira, traz à baila aquilo que têm sido as actuações perversas de alguns altos funcionários do Estado nesta Região Autónoma. Da actividade de alguns, mesmo com anos de comissão de serviço na Região, apenas conhecemos as suas presenças regulares nos cocktails e nas recepções oficiais. Isso inclui aquelas infindáveis e stressantes rondas para apresentação de cumprimentos à chegada ou à saída, mais os entediantes votos de Bom Natal e por aí abaixo. Do resto do trabalho, se é que há, pouco ou nada se sabe cá fora. Mas é claro que, na penumbra dos gabinetes, alguns actuam como ratos de sacristia, muitas vezes em conluio com o poder dominante que nunca se esquece de convidá-los para os pequenos e os grandes momentos sociais. Coisas que tornam a estada na Madeira muito agradável ao figurão e à sua família. Talvez do melhor que há no País, porque alguns deles, depois de cá passarem, não mais saiam daqui se pudessem escolher... Não é por acaso que o próprio presidente do Governo Regional se empenha pessoalmente nos formalismos protocolares. Sempre foi assim. Depois, os cuidados com as formalidades passam rapidamente para outro tipo de atenções que seriam sempre elogiáveis, se não trouxessem água no bico. Veja-se o que acontece quando algum dos representantes de órgãos ou serviços centrais do Estado ‘mija fora do penico’: atente-se apenas no exemplo desta semana, com o presidente a declarar-se “ofendido” com os senhores do Tribunal de Contas. Com certeza que o juiz conselheiro João Aveiro Pereira não é mais convidado para coisa nenhuma... No tempo das ‘vacas gordas’ as mordomias e salamaleques com que se brindava qualquer figurão que cá chegasse – com claros intuitos de ‘domesticação’ – davam mesmo nas vistas. Penso que agora será um pouco diferente, porque escasseiam as festarolas, e a rabugice e a falta de pachorra presidenciais começam a reduzir esse espaço. Foram tempos faustosos. Como uma mão lava a outra, viveram-se casos e casos de pura promiscuidade. Coisas de amigalhaços, arrumadas com um brinde e promessa de mais um convite. Convirá que não haja mais juízes sensíveis a tantos outros “chocantes” proteccionismos, senão vai ser cá uma produção de relatórios pouco abonatórios para tanta gente que por aqui passou. Ou que por aqui anda ainda. Afinal, este era o melhor lugar para uma comissão de serviço bem passada...