Há um livro técnico que sempre ocupou um lugar especial na estante da minha consciência. Que não se mede pelo volume do número de caracteres debitados no rancor da mágoa, mas que, pelo conteúdo lúcido, crítico e acutilante, sobre o jornalismo e a comunicação, marcou diferença e inspirou-me durante a minha formação académica e profissional. Recupero agora, como que procurando orientação, quando tudo parece desmoronar-se num mundo de lógicas invertidas nas redacções que ousaram seguir a expressão dessa fonte de liberdade. Falo de ‘A Tirania da Comunicação’, de Ignacio Ramonet, uma obra com mais de 15 anos que faz uma prospecção sobre o futuro do jornalista e onde é equacionada a possibilidade de estar condenado à extinção.

E mal vai este nosso pequeno mundo quando há mais vontade das elites do poder em se substituir ao jornalismo do que a sociedade em usá-lo como fonte de conhecimento. Saber é poder. “Informar-se continua a ser uma actividade produtiva, impossível de realizar sem esforço, e que exige uma verdadeira mobilização intelectual. Uma actividade bastante nobre, em democracia, para que os cidadãos queiram dedicar-lhe uma parte do seu tempo, do seu dinheiro e da sua atenção”.

O jornalismo bem que pode ser, na teoria, uma “disciplina cívica cujo objectivo é formar os cidadãos”, porque na prática, pelo menos por estes lados, o poder político é quem mais se sente legitimado para influenciar a opinião pública, instrumentalizar a comunicação social como tem feito, condenar os indesejados ao fracasso com o mais infame dos métodos enquanto injecta prosas de escribas e dinheiro do erário para pintar a ‘sua’ verdade numa tela para emoldurar nos gabinetes públicos e distribuir nos adros das igrejas.

“Nessa condição, e apenas nessa condição, a imprensa escrita pode abandonar as margens confrontáveis do simplismo dominante e reencontrar os seus leitores, que desejam compreender para melhor poderem agir nas nossas democracias entorpecidas”, escreveu Ramonet. Está ainda por escrever uma outra forma de tirania – a do asfixamento financeiro aos órgãos de comunicação social que teimam em escrever verdades comprometedoras e inconvenientes com isenção, imparcialidade e a independência possíveis numa região fortemente politizada. Soubesse o director do Le Monde Diplomatique que ainda existe numa democracia fantoche um coveiro interessado em plantar jardineiros nas redacções para cultivar um jornalismo situacionista em tons de laranja choque e, se calhar, teria percebido que nem sempre os "valores baseados na verdade e na autenticidade" saem vitoriosos, como vaticinou Vaclav Havel, nem conseguem se sobrepor à produção de farsas da máquina da tirania do poder. E por mais que se faça a “aposta paciente do jornalismo”, na Madeira este acabará por sucumbir aos pés da democracia, em avançada necrose.

P:S: “Agora que a democracia e a liberdade parecem triunfar num planeta em grande parte liberto dos regimes autoritários, paradoxalmente, as censuras e manipulações, sob diversas formas, regressam em força. Novos e sedutores ‘ópios do povo’ propõem uma espécie de melhor dos mundos, distraem os cidadãos e desviam-nos da actividade cívica”.