Faltam cinco meses para começar a mudança. Vamos cerrar os dentes e aguentar Nunca como agora me foi tão penoso e difícil escrever. É estranho, com tão grande abundância de temas, sentir uma barreira quase intransponível, feita de indignação, revolta e impotência. O que se passa é que já não consigo vislumbrar lados positivos neste aluvião de infelicidade que se abateu sobre a minha terra e o meu Pais, perdi a capacidade de aplicar um filtro de boa disposição à miséria que nos assola, a verdade é que as palavras morrem-me quase todas na garganta, não sou capaz de dizê-las ou escrevê-las, só me apetece gritá-las com raiva. Atingimos o limite; não há margem para mais austeridade; há que contrariar esta espiral recessiva; vamos regressar aos mercados; temos de emagrecer o estado; é preciso controlar o desemprego; há que estimular o crescimento da economia; não podemos falhar os compromissos com os nossos credores; somos uns bons alunos e os professores estão contentes connosco; não somos a Grécia, não somos o Chipre; somos mais ou menos como a Irlanda, mas a Irlanda não é Portugal; a Espanha também não é Portugal; e a Itália é uma casa de loucos… É isto todos os dias, já ninguém aguenta… Somos tantos a clamar que os reformados não podem ser os mais sacrificados, que não se pode quebrar o contrato do Estado com estes cidadãos, que esta política de cortes e impostos está a matar pessoas, todos os dias…Mas mesmo assim vem aí mais austeridade, e nunca mais pára - há sempre margem para mais um saque. Mas há outros contratos que o Estado não pode, ou não consegue, ou não quer quebrar, sejam algumas reformas e salários obscenos, sejam "parcerias" que beneficiam privados e esmifram o erário público. Agora são os SWAP a mostrar que a criatividade também pode ser ruinosa. E a lenga-lenga continua - a Troika manda, o Governo obedece porque não tem alternativa, o Presidente da República suspeita-se que morreu ou emigrou, e deixou em Belém um boneco insuflável que abana a cabeça e diz que sim. Mas já chega, basta, basta!!! Se o Pais está mal, a Madeira ainda está pior: austeridade a triplicar, tudo cada vez mais caro, recebe-se cada vez menos, até o subsídio de alimentação metem num cartão, que só dá para usar nos supermercados (e nos restaurantes, mas quem é que pode?)… Recebe-se o ordenado e paga-se as contas, o que fica estica-se, mas acaba quando o próximo salário ainda é uma miragem. Vive-se no arame, esperando que não haja uma avaria no frigorífico ou no carro, porque não há dinheiro para o conserto. Este é o dia-a-dia da nova classe média e média alta, a que ainda tem algo a que se agarrar. E os outros todos, os cada vez mais que têm salários em atraso, ou estão desempregados, ou emigram, e os que pedem ou roubam para matar a fome aos filhos. E as empresas que fecham todos os dias, e os sonhos que morrem todas as horas, e as portas que se fecham a cada minuto… Isto nunca mais acaba! Basta! Mas na Madeira parece que não há culpados. Quem manda atira as culpas para o Sócrates e para o Passos Coelho, como se todos os males viessem de além-mar. A dívida oculta foi um "mal necessário", o partido quebrado é uma traição de maçons, a oposição é britânica, o povo que reclama é cachorro e o que aplaude não é carneiro, as eleições estão à porta e vale tudo para vencer - atenção: não se esqueçam de difamar os adversários. Isso é que é importante! Não importa a Saúde que está moribunda, estratégia para o turismo nem vê-la, e que dizer do modelo desportivo da região, a menina dos olhos onde agora se vê clubes falidos e atletas/heróis que honram e suam a camisola, enquanto acumulam salários em atraso. Basta! Faltam cinco meses para começar a mudança. Vamos cerrar os dentes e aguentar. Acreditemos que o voto ainda faz a diferença. Raul Ribeiro

Faltam cinco meses para começar a mudança. Vamos cerrar os dentes e aguentar

Nunca como agora me foi tão penoso e difícil escrever. É estranho, com tão grande abundância de temas, sentir uma barreira quase intransponível, feita de indignação, revolta e impotência. O que se passa é que já não consigo vislumbrar lados positivos neste aluvião de infelicidade que se abateu sobre a minha terra e o meu Pais, perdi a capacidade de aplicar um filtro de boa disposição à miséria que nos assola, a verdade é que as palavras morrem-me quase todas na garganta, não sou capaz de dizê-las ou escrevê-las, só me apetece gritá-las com raiva. Atingimos o limite; não há margem para mais austeridade; há que contrariar esta espiral recessiva; vamos regressar aos mercados; temos de emagrecer o estado; é preciso controlar o desemprego; há que estimular o crescimento da economia; não podemos falhar os compromissos com os nossos credores; somos uns bons alunos e os professores estão contentes connosco; não somos a Grécia, não somos o Chipre; somos mais ou menos como a Irlanda, mas a Irlanda não é Portugal; a Espanha também não é Portugal; e a Itália é uma casa de loucos… É isto todos os dias, já ninguém aguenta… Somos tantos a clamar que os reformados não podem ser os mais sacrificados, que não se pode quebrar o contrato do Estado com estes cidadãos, que esta política de cortes e impostos está a matar pessoas, todos os dias…Mas mesmo assim vem aí mais austeridade, e nunca mais pára - há sempre margem para mais um saque. Mas há outros contratos que o Estado não pode, ou não consegue, ou não quer quebrar, sejam algumas reformas e salários obscenos, sejam "parcerias" que beneficiam privados e esmifram o erário público. Agora são os SWAP a mostrar que a criatividade também pode ser ruinosa. E a lenga-lenga continua - a Troika manda, o Governo obedece porque não tem alternativa, o Presidente da República suspeita-se que morreu ou emigrou, e deixou em Belém um boneco insuflável que abana a cabeça e diz que sim. Mas já chega, basta, basta!!! Se o Pais está mal, a Madeira ainda está pior: austeridade a triplicar, tudo cada vez mais caro, recebe-se cada vez menos, até o subsídio de alimentação metem num cartão, que só dá para usar nos supermercados (e nos restaurantes, mas quem é que pode?)… Recebe-se o ordenado e paga-se as contas, o que fica estica-se, mas acaba quando o próximo salário ainda é uma miragem. Vive-se no arame, esperando que não haja uma avaria no frigorífico ou no carro, porque não há dinheiro para o conserto. Este é o dia-a-dia da nova classe média e média alta, a que ainda tem algo a que se agarrar. E os outros todos, os cada vez mais que têm salários em atraso, ou estão desempregados, ou emigram, e os que pedem ou roubam para matar a fome aos filhos. E as empresas que fecham todos os dias, e os sonhos que morrem todas as horas, e as portas que se fecham a cada minuto… Isto nunca mais acaba! Basta! Mas na Madeira parece que não há culpados. Quem manda atira as culpas para o Sócrates e para o Passos Coelho, como se todos os males viessem de além-mar. A dívida oculta foi um "mal necessário", o partido quebrado é uma traição de maçons, a oposição é britânica, o povo que reclama é cachorro e o que aplaude não é carneiro, as eleições estão à porta e vale tudo para vencer - atenção: não se esqueçam de difamar os adversários. Isso é que é importante! Não importa a Saúde que está moribunda, estratégia para o turismo nem vê-la, e que dizer do modelo desportivo da região, a menina dos olhos onde agora se vê clubes falidos e atletas/heróis que honram e suam a camisola, enquanto acumulam salários em atraso. Basta! Faltam cinco meses para começar a mudança. Vamos cerrar os dentes e aguentar. Acreditemos que o voto ainda faz a diferença.

Raul Ribeiro