A ideia de compor uma Europa através da soma de várias Alemanha’s pode parecer boa ideia, se partirmos do princípio que a Alemanha é proprietária de um modelo Universal que funciona bem e que é o melhor dos modelos. É nisto que acredita o Governo Alemão, uma vez que se esforça por “vender” uma versão express do seu modelo (ajuste fiscal e corte na despesa) ao resto da Europa. Como vem dizendo François Hollande, presidente Francês, replicar o que a Alemanha fez à 10 anos, mas num período comprimido, não é a solução magica para os nossos problemas, e pode até ser perigoso.
Parece que é preciso estar sempre a lembrar que não vivemos numa Europa homogénea. Muitas das economias na Europa, não são suficientemente fortes para aguentar a austeridade que está a ser imposta, levando milhares de pessoas para uma situação de desemprego de longo prazo. Grécia, Portugal, Espanha e Itália, estão com taxas de desemprego record e as pessoas que formam esses números não têm perspectivas de trabalho a curto e médio prazo. Todas as romarias têm um cambado, e houve tempos em que esse cambado era a Alemanha. O governo de Gerhard Shröder e o seu pacote de medidas para flexibilizar o mercado de trabalho, ficou conhecido por ter transformado a Alemanha que hoje em dia lidera e conduz esta romaria. Mas é preciso ter atenção a três pontos: 1) por um lado, estas medidas foram tomadas num contexto económico radicalmente diferente, 2) por outro lado, o processo de reestruturação da Economia Alemã já tinha começado à muito tempo, e para terminar, 3) este processo foi acompanhado de uma redução do peso fiscal para que o sector privado tivesse mais incentivos para continuar a investir e para que fosse possível criar uma economia exportadora. Mas não é nada isso que se está a fazer por cá! Logo, não se pode esperar que medidas diferentes aplicadas em períodos e contextos diferentes possam dar os mesmos resultados.
A pressa para aplicar medidas para reduzir o défice foi tão grande, que a primeira coisa que fizeram os governos dos países intervencionados foi tomar medidas que acabaram com o sector privado. O aumento das receitas do estado através do aumento de impostos e a redução da despesa pelo corte dos salários, só teve um efeito: a falência das pequenas e médias empresas e o consequente aumento do desemprego. Ao contrário do que foi feito, o trabalho deveria ter começado pela redução dos encargos do sector público, que naturalmente também levaria a um aumento no desemprego, mas este seria muito menor, e parte dele absorvido pelo sector privado. Obviamente que isto não seria suficiente, por isso mesmo considero que o tempo é um factor importantíssimo, para que a desejada recuperação e reajustamento da economia se dê de uma forma equilibrada e não nos acabe por empurrar para o precipício. O ajustamento deveria ser alargado no tempo e a taxa de juro dos empréstimos resultantes do resgate deveria ser substancialmente mais baixa.
O caminho que a Alemanha nos levou a trilhar, colocou a Europa numa posição em que a Alemanha faz de Pai Tirano e os restantes países de filhos submissos. Uns, com mais medo e menos atrevidos, cumprem as regras do pai e outros mais rebeldes tentam fugir ás ordens. Será que queremos uma Europa assim? Uma Europa onde a Alemanha passa os cheques, a dita as regras?
Luís Pedro Branco