Há muito tempo que este princípio "tudo tem um preço" tem sido praticado no mundo. Não importa o que seja. Pode ser um objeto, um bem móvel ou imóvel, um certificado, uma reportagem ou informação nos meios de comunicação social, uma notícia nas revistas da moda, um minuto do nosso tempo e pode até ser cada um de nós, se assim o permitirmos.
Hoje, apesar de todas as mudanças, este princípio permanece infelizmente bem presente, agravado ainda pela "difícil" situação financeira em que hoje vivemos. Se estamos preocupados com o presente e o futuro da nossa sociedade temos de ter consciência de que esse futuro depende muito mais do que nós fazemos e dos caminhos e exemplos que estamos dispostos a oferecer e a trilhar. Precisamos definitivamente de deixar o nosso canto, o nosso refúgio e abandonar o "tudo tem um preço" e o fatalismo do "não há nada a fazer".
É verdade que o dinheiro é algo "incrível", pois com ele pode-se controlar o mundo ànossa volta. Ele faz o feio ficar bonito, o rejeitado ser aceite e amado e o anónimo se tornar emcelebridade. Recurso indispensável para a sobrevivência de qualquer pessoa, o dinheiro traz-lhepoder e com certeza desejos a realizar, porém essa situação tem um prazo de validade que chega quando o extrato bancário fica totalmente vazio.
É, então, necessário alterar este modo de pensar e de agir, é urgente encontrar e celebrar uma nova "liturgia" do dinheiro, pois quem pensa que o dinheiro controla totalmente o mundo engana-se e está a cair no abismo profundo da ignorância materialista. De facto, o dinheiro consegue realmente comprar quase tudo o que está ao nossoalcance, mas não compra o amor, a saúde, o carinho, a alegria, a felicidade e a amizade, entre muitas outras coisas.
Nesta nova liturgia, a afirmação "Creio em Deus" coloca um claro e categórico não ao absolutismo do poder (de qualquer poder). É um não à pretensão totalitária de todo o poder, à adoração da força dos grandes, sejam eles quais forem. Esta afirmaçãoconfere, por um lado, a cada pessoa um caráter único e absoluto em virtude da sua relação pessoal com esse mesmo Deus e, por outro, imprime um caráter relativo a todas as realidades.
Este "Creio" impede o uso do poder que instrumentaliza, destrói os outros e promove a libertação dos caprichos que entregama pessoa à tirania dos"falsos deuses".
Assim, na medida em que a pessoa se afasta do seu "Credo", esquece-se, durante o decorrer da semana,de ter atitudes que concretizem esse seu princípio e, nessa mesma medida,dedica-se a prestar"sacrifícios aos deuses" do consumo, do prazer, do conforto, do ter mais, do desejo, da inveja…
Apesar de tudo, atrevemo-nos a dizer que a negação mais clara e verdadeira deste "Credo" é o dinheiro. Já o era no tempo de Jesus. O dinheiro aparece como o todo-poderoso, porque quem tem dinheiro parece poder alcançar todas as coisas, parece poder dispor de tudo. Enfim, de tudo não. A Deus, ninguém compra. É importante recordar, neste momento,estas palavrastão conhecidas:"Ninguém pode servir a dois senhores. Com efeito, ou odiará um e amará o outro, ou se apegará ao primeiro e desprezará o segundo. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6,24).Fica o desafio: coloquemo-nos a nós mesmos na balança e vejamos qual dos pratos vence na nossa vida.
Marco Gomes, Director Pedagógico da APEL
Marco Gomes