Como as pedras do Princípio Como o princípio da Pedra Como no princípio pedra contra pedra Os faustos dão noite O poema ainda sem rosto O bosque ainda sem árvores Os cantos ainda sem nome

Mas já a luz irrompe com passos de leopardo E a palavra levanta-se e ondula e cai E é uma longa ferida e um silêncio cristalino

A alegria amadurece como um fruto O fruto amadurece até ser sol O sol amadurece até ser homem O homem amadurece até ser astro Nunca a luz se dividiu em tantas luzes As árvores as ruas as montanhas Desdobram-se em ondas transparentes Uma rapariga ri à entrada do dia É uma pluma incendiada a canto de ave

A música exibe seus braços nus Suas espáduas nuas seu pensamento nu No calor o jubiloso momento Água terra sol são um único corpo A hora e sua campânula dissolvem-se As pedras as paisagens evaporam-se Partiram todos sem olhar para trás Os amigos as beldades à orla da vertigem Partem as casas a igreja os carros eléctricos

O mundo empreende o voo Também meu corpo se me escapa E entre as claridades se me desvanece O sol cobre tudo abrange tudo E em seu olhar fixo nos submergimos E em sua pupila longamente nos queimamos

E nos abismos de sua luz caímos Música despenhada E ardemos e não deixamos rasto

Renata Camacho