Talvez sair à noite seja uma forma de fazer de conta que está tudo bem. Era hora do almoço. Umas dez pessoas enfardavam vitela assada ou lulas grelhadas. O calor fazia pingar, mas já estavam acostumadas à falta de ar condicionado do velho restaurante da Rua da Madeira. De rompante, entrou um rapaz aos gritos. Chamas a sair pela abóbada. O fogão a lenha onde a senhora Maria da Conceição Figueira fazia o seu arroz de pinhões tinha pegado fogo. O lume subira pela conduta do exaustor e saíra pelas aberturas da abóbada. O Abade de Priscos, o pudim que ela preparara para adoçar o bico da clientela naquele dia, nem saíra da cozinha. Peguei num bloco de notas e corri para lá. Joaquim Timóteo, o sub-chefe dos Bombeiros Sapadores do Porto, comandava a operação. "Todo o recheio está danificado devido à concentração de água e fumo", informou. Estava convencido de que a culpa era do sebo ou de quem o deixara amontoar-se. O senhor Figueira jurava ter limpo a chaminé um mês antes. "Os problemas começaram com as obras na Rua 31 de Janeiro", dizia, referindo-se à rua paralela à Rua da Madeira. "As máquinas passavam com tanta intensidade que faziam isto tudo tremer." Isso foi no final de Agosto de 2002. Eu morara ali perto, num prédio Arte Déco virado para o Teatro Nacional de São João - a janela do meu quarto dava para a máscara da comédia. Gostava de dizer que ia à Madeira quando ia ao "Traçadinho" comer arroz de pinhões. O "Traçadinho" tinha 55 anos. Fora o pai do senhor Figueira que o abrira. "Sei que ninguém é de ninguém, que nada é nosso, mas tenho muita pena, porque tenho muito amor ao 'Traçadinho'", afiançava a senhora Maria. Sem aquela tasquinha, a Rua da Madeira passou a ser apenas uma rua com um nome muito familiar, na estação ferroviária de São Bento, onde velhotes se enfrascam e rapazes engatam. Deixei de aparecer. Um destes dias, andava eu a tentar perceber a atribulada história de um romeno, desci a Rua da Madeira e tive uma valente surpresa: um clube de diversão nocturna, o Gare Club, com duas salas, uma com pista de dança e outra com serviço de winebar; esta última chama-se mesmo "Traçadinho". Salvou-se parte da decoração original, a começar pelos azulejos. Está a acontecer em todo o lado: fábricas, armazéns, lojas, restaurantes transformam-se em bares. Há um país que está a sair à noite como nunca. Talvez sair à noite seja uma forma de fazer de conta que está tudo bem. Talvez ressuscitar velhos espaços ajude a imaginar futuros como antes. Não sei, não sei, mas, vou lá. Assim, de repente, apetece-me arroz de pinhões. Olhe, era um prato de arroz de pinhões e um país com uma taxa de desemprego de 4%, se faz favor. Ana Cristina Pereira, Jornalista do Público Ana Cristina Pereira
Talvez sair à noite seja uma forma de fazer de conta que está tudo bem.
Era hora do almoço. Umas dez pessoas enfardavam vitela assada ou lulas grelhadas. O calor fazia pingar, mas já estavam acostumadas à falta de ar condicionado do velho restaurante da Rua da Madeira. De rompante, entrou um rapaz aos gritos. Chamas a sair pela abóbada.
O fogão a lenha onde a senhora Maria da Conceição Figueira fazia o seu arroz de pinhões tinha pegado fogo. O lume subira pela conduta do exaustor e saíra pelas aberturas da abóbada. O Abade de Priscos, o pudim que ela preparara para adoçar o bico da clientela naquele dia, nem saíra da cozinha.
Peguei num bloco de notas e corri para lá. Joaquim Timóteo, o sub-chefe dos Bombeiros Sapadores do Porto, comandava a operação. "Todo o recheio está danificado devido à concentração de água e fumo", informou. Estava convencido de que a culpa era do sebo ou de quem o deixara amontoar-se.
O senhor Figueira jurava ter limpo a chaminé um mês antes. "Os problemas começaram com as obras na Rua 31 de Janeiro", dizia, referindo-se à rua paralela à Rua da Madeira. "As máquinas passavam com tanta intensidade que faziam isto tudo tremer."
Isso foi no final de Agosto de 2002. Eu morara ali perto, num prédio Arte Déco virado para o Teatro Nacional de São João - a janela do meu quarto dava para a máscara da comédia. Gostava de dizer que ia à Madeira quando ia ao "Traçadinho" comer arroz de pinhões.
O "Traçadinho" tinha 55 anos. Fora o pai do senhor Figueira que o abrira. "Sei que ninguém é de ninguém, que nada é nosso, mas tenho muita pena, porque tenho muito amor ao 'Traçadinho'", afiançava a senhora Maria. Sem aquela tasquinha, a Rua da Madeira passou a ser apenas uma rua com um nome muito familiar, na estação ferroviária de São Bento, onde velhotes se enfrascam e rapazes engatam. Deixei de aparecer.
Um destes dias, andava eu a tentar perceber a atribulada história de um romeno, desci a Rua da Madeira e tive uma valente surpresa: um clube de diversão nocturna, o Gare Club, com duas salas, uma com pista de dança e outra com serviço de winebar; esta última chama-se mesmo "Traçadinho". Salvou-se parte da decoração original, a começar pelos azulejos.
Está a acontecer em todo o lado: fábricas, armazéns, lojas, restaurantes transformam-se em bares.
Há um país que está a sair à noite como nunca. Talvez sair à noite seja uma forma de fazer de conta que está tudo bem. Talvez ressuscitar velhos espaços ajude a imaginar futuros como antes. Não sei, não sei, mas, vou lá. Assim, de repente, apetece-me arroz de pinhões. Olhe, era um prato de arroz de pinhões e um país com uma taxa de desemprego de 4%, se faz favor.
Ana Cristina Pereira, Jornalista do Público
Ana Cristina Pereira