Escrevo no meio do vazio. Num silêncio enorme. Ouço na perfeição as teclas em que os meus dedos tocam, o ruído do ar condicionado, a SIC Notícias onde não-sei-quem fala de não-sei-quê. Aqui e ali, um telefone que toca. Alguém que pergunta alguma coisa. Alguém que responde de braços caídos. Como quem parece resignar. Parece. Escrevo a meio da tarde de sexta-feira. Que não é 13, mas é como se fosse. E à sexta-feira, esta Redacção fervilhava de gente. Fervilhava. Agora, olho em volta e vejo que neste momento somos 7. Apenas 7. Se fosse uma sexta-feira normal, a esta mesma hora seriamos 15. Mas não é uma sexta-feira normal e somos 7. Nos próximos tempos, se os que ficarem se reunirem todos, seremos 18 jornalistas. Já fomos muitos mais. Agradeço sinceramente as frases de encorajamento que me foram chegando ao longo deste dia longo. Os desabafos deixados no Facebook, com ou sem destinatário especial. Os comentários deixados na nossa página na Internet e no telefone. Registo a simpatia, e sobretudo a coragem, dos que se chegam para o nosso lado e até mesmo daqueles que apenas pensam sobre o que está a acontecer. Que apenas pensam. Estejam eles a favor ou contra nós, o importante é que estejam atentos. E não posso deixar de estranhar o distanciamento comprometido de muitos outros. Daqueles que tanto empurram com entusiasmo, como escondem a mão quando alguém vê. Infelizmente, não é a primeira vez que vejo camaradas de profissão a arrumar secretárias. Mas é certamente a vez em que dói mais, não só porque agora são mais os que ficam de fora, mas também porque se volta a perder excelentes profissionais. Gente que deu o que tinha e mais ainda. Sim, é um dia triste. Muito triste. Certamente o mais triste de 22 anos de carreira nesta casa. Aquele em que não se sabe o que dizer, nem como dizer. Aquele em que perdemos alguém a quem dizer seja o que for. No meio do mesmo silêncio apetece gritar: OBRIGADO aos que nos empurraram para isto. Ao presidente do Governo Regional em primeiro lugar. É justo reconhecer a Alberto João Jardim mais uma vitória para acumular a tantas outras como faz com o ordenado e a reforma: sim, senhor presidente, ganhou mais esta batalha. Ajudou, e com que empenho!, ao despedimento de mais 28 profissionais e à rescisão de outros 7. Ganhou. Mesmo que toda a gente esteja a ver o esbanjamento que todos os dias faz com o nosso dinheiro. Mesmo que a grande maioria desta embrutecida Madeira já saiba que entrega ao seu jornal 11 mil euros por dia, mesmo que quase todos já tenham percebido que tudo fez e faz para dar cabo deste jornal que não lhe faz a corte, não lhe beija as mãos e muito menos se ajoelha quando passa. Sim, senhor presidente, ganhou. Aproveite, comemore, divirta-se! E leve a bicicleta com que nos tem conduzido nos últimos anos. É com ela, essa bicicleta transformada em modelo político, que vai batendo de frente. Todos os anos. Todos os dias de cada ano. No fim, como herança do seu longo reinado, ficarão estradas, túneis e edifícios vazios de um povo que teve de procurar outro rumo de vida, depois de ficar tão vazio quanto essas estradas, esses túneis, esses edifícios. Mas obrigado também aos que têm o dever de olhar por esta parcela do território e fingem que apenas vêem a paisagem. Obrigado ao presidente da República, obrigado ao representante da República, obrigado aos vários governos da República, obrigado à maioria dos deputados da Assembleia da República - com a honrosa excepção dos eleitos da Madeira pelo CDS e pelo PS e a vergonhosa colaboração dos eleitos da Madeira pelo PSD. Todos os que ajudaram a chegar aqui devem estar satisfeitos. Acabaram de dar um valente murro na vida de dezenas de famílias. Acabaram de dar um duro golpe na liberdade de expressão, no pluralismo, no normal funcionamento das regras do mercado. Espero que continuem todos eles muito confortáveis com a consciência que dizem ter. E que consigam continuar a enfrentar, olhos nos olhos, este povo que tem fome enquanto permitem este atentado à concorrência injectando mais de 50 milhões de euros em 20 anos num jornal de um homem só. Que tanto serve para o idolatrar a ele, como para achincalhar alguns de vós. Cada vez mais de vós. E atenção que deste lado da rua não se defende o mesmo para o outro lado. Como jornalista, e sobretudo como cidadão, espero apenas o regresso do Jornal da Madeira com um mínimo de dignidade e respeito pelo mercado e com garantias de futuro para os seus profissionais. Que nunca tenham de passar pelo que passam agora os 35 que desta vez deixaram esta empresa, nem os que antes deles já a deixaram. Por último, um obrigado à Diocese. E em especial ao bispo que fecha os olhos de segunda a sábado e só os abre ao sábado para se rever em resmas de fotografias naquelas folhinhas que lhe dão no seu jornal. Também isso é triste e mostra quantas moedas vale o orgulho disfarçado de uma voz católica que de católica pouco tem. Mais do que um dia triste para os que foram e os que ficaram, este é um dia negro para a Comunicação Social na Madeira. O artigo já vai longo e, apesar de tudo, há mais um DIÁRIO para fazer para este sábado e outro para domingo e outro para segunda e assim sucessivamente, enquanto for possível. Mesmo assim, e sem falsas modéstias, permito-me deixar uma tema para reflexão: imaginem o que seria a Madeira sem o DIÁRIO.