Tive a sorte de andar na quarta classe, e não no moderno quarto ano. De ir calçada para a escola, mesmo sem ténis de marca, que só chegaram em jeito de retribuição pelos bons resultados na adolescência. Ouvi muitas vezes o meu pai falar do malfadado exame para o qual os meninos vestiam a sua melhor roupa e até iam de sapatos, excepcionalmente, e parecia-me sempre coisa de outro tempo e com uma dose de ficção. Um momento solene, rito de passagem para a idade adulta, e para muitos, como o meu pai, o fim de um ciclo, ainda que o sonho o quisesse levar mais longe. Não lhe bastava a vontade de continuar, numa altura em que a escola era pouco inclusiva e privilégio de alguns. Para os outros, os pobres, era hora de arrumar os sapatos e ir trabalhar.
Tive a sorte de nascer num tempo, em que o conhecimento era mais ou menos limitado pelo sonho de cada um. E uma estrelinha extra ao ter tido a irmã Santa Face e a irmã Teresa no caminho. Não que fossem brandas ou hesitassem na hora de punir o mau-comportamento, mas porque nos preparavam para as matemáticas, para o português, mas também para o Mundo. Sabiam perfeitamente que tinham bons alunos, medianos e outros em mais dificuldades, mas não me lembro de alguma vez terem desistido de algum. Premiavam o mérito dos melhores, recompensado-os, mas sempre sem demérito dos demais. Eram exigentes, de tal forma que uma vez, na primeira classe, com a irmã Teresa, fizemos um ditado (sim já os fazíamos) e eu estreei-me no erro. Fiquei devastada e chorei, em casa, como se o Mundo fosse acabar. Um ou dois dias depois, a irmã da Apresentação de Maria chamou-me para dizer que também me tinha de preparar para errar na vida, ainda que devesse fazer tudo em sentido contrário, que errar e cair também faziam parte. Talvez ela já não se lembre deste episódio, mas eu nunca mais me esqueci. Assim como da despedida da quarta classe, com uma irmã Santa Face a não conseguir esconder a tristeza (e as lágrimas) da nossa saída debaixo da sua asa educadora, mas também protectora. Fomos, sem exame, mas preparados.
A vida nunca mais foi a mesma desses tempos, mas não mais esqueci os ensinamentos das duas dedicadas freiras, cujos métodos devem estar obsoletos à luz dos actuais manuais de pedagogia.
A minha escola não foi a mesma do meu pai e ainda bem. Apesar de eu por vezes ainda estar a contar pelos dedos uma soma que ele faz em segundos. A escola dos meus filhos também não será a mesma que a minha. Os tempos mudam. Da evolução espera-se que seja sempre para melhor. Por isso quando vi reportagens sobre crianças em pânico e com dores de barriga, com um exame que lembra outros tempos, senti um arrepio. Não que seja contra o rigor e a excelência, aliás estou grata por me terem incutido esse padrão, mas porque pareceu-me um voltar atrás a um separar o trigo do joio, que às vezes é apenas separar os ricos dos pobres, os bons dos maus. Pareceu-me fazer pouco sentido, sobretudo, quando vi professores de 4º ano descontentes e desmotivados (mais ainda) com estas regras, que em alguns casos destroem em horas o trabalho de anos desnecessariamente e para nada. Não gosto desta escola que exclui e separa apenas para a estatística e espero que se vá a tempo de fazer melhor que isto. Com exame ou sem ele. A educação não pode ser um acaso do destino, ainda que ajude um bocadinho quando nos cruzamos com pedagogas como a irmã Santa Face e a irmã Teresa.