Lembro-me de ser criança, de brincar despreocupado na terra, no quintal, lembro-me dos meus avós, de olhar para o cão, o gato, as ovelhas, o porco, as galinhas, os coelhos, via-os, não como coxas, ou grelhados, mas como seres sensíveis que participavam vivos das brincadeiras. Era mau para as moscas, mas isso passou-me, comia o que me era colocado no prato, comia os animais, mas isso também me passou. Lembro-me de não ter de fazer cálculos e sondagem à motivação das pessoas, tudo era natural, havia confiança entre as pessoas, podia ir de mão em mão e todos eram amigos. Na mente das crianças não há maldade, nem elas concebem essa maldade nas mentes dos outros. A criança inocente concebe as pessoas à sua imagem. Entretanto já vi de tudo, a terra queimada, os animais abandonados em canis, já vi pessoas desesperadas em filas para receber comida, já vi a violência e a dor... há-de haver aí muitos a pensarem "Pois, acordaste para a realidade Rui!" Seria caso para dizer "Bem vindo ao inferno!" Mas quem é que constrói este inferno? Não são pessoas que em tempos foram crianças? Algo correu mal no percurso, no modelo, como é que isto aconteceu? É necessário refletirmos sobre isto! Se tenho prazer no contacto com a terra, em dar um carinho aos animais e um sorriso às pessoas, há agora também um desejo compassivo, uma consciência que dá luz a uma responsabilidade que nos impele a fazer algo pelo bem dos muitos que sofrem arredados do nosso olhar. Quantos jovens estão neste momento a confrontar-se com a realidade em que os adultos vivem? Convenhamos, é uma realidade psicótica e sombria, mas essencialmente incoerente com a matriz com que nascemos. Se estar desperto é viver a vida em harmonia com o que nos rodeia, então estamos de acordo que as crianças estão acordadas e nós adultos a viver um terrível pesadelo, em que tudo se está a consumir numa espiral destrutiva! No pesadelo prospera a dor, na realidade dos jovens o amor. Para que realidade é que você quer acordar?

Rui Almeida, Deputado do PAN