Sempre me fascinou a infinita capacidade das nossas mãos. Do gesto mais delicado, milimétrico e sensível até à força bruta contida num punho fechado, de tudo as nossas mãos são capazes! Como médico, o tempo ensinou-me que para exercer a minha arte, necessitava de três mãos. Uma que toca e percorre o corpo do doente à procura de um diagnóstico, outra que intervém e remove a doença à procura da cura e uma terceira que conforta e aconchega com ternura, a fragilidade de quem sofre. DeBakay, justificava a perícia da sua arte como cirurgião, dizendo que as suas mãos estavam directamente ligadas ao cérebro. Quem como eu teve o privilégio de o ver operar, ficou com a certeza que em cada gesto, em cada movimento das suas mãos, só um Criador divino podia ter feito uma obra tão perfeita como aquelas suas mãos. Já Maradona reconhecera essa dimensão divina das mãos, quando na década de 68 marcou, com a mão, o golo que deu a vitória à Argentina sobre a Inglaterra no mundial. Disse então Maradona, "se houve mão na bola, foi a mão de Deus"! Hoje, o Maradona continua a jogar entre nós, a enganar os árbitros, a não respeitar as regras do jogo e quando está quase a perder, até parece que uma mão (espero que não seja de Deus), mexe no destino da história e contra a corrente do jogo, ele volta a ganhar. Mãos diferentes mas que também ficaram na historia, foram as de Pôncio Pilatos, Procurador de César. Sem caracter nem coragem, mandou trazer agua, lavou as mãos dizendo; "sou inocente do sangue deste homem!". E assim condenou o mais inocente dos homens! Ainda hoje há Procuradores que lavam as mãos como se a incompetência ou covardia dum Procurador, correndo pelos esgotos desta cidade, desaparecessem para sempre no mar. Ao libertar o ladrão Barrabás, o Procurador protegeu todos os Barrabazes que amigos ou à sombra protectora de César, se julgam impunes e nada têm a recear. Com as mãos decepadas, ficou Duarte de Almeida em 1476 quando defendendo o pavilhão real, foi cercado pelos Castelhanos na batalha de Toro. Quase exangue, lutou heroicamente até que Gonçalo Pires o ajudou a desbaratar os inimigos e a resgatar o estandarte de D. João II. Esquecido e abandonado pelo Poder, este herói que lutou pelo seu rei, terá morrido no esquecimento e na miséria. Na miséria moral mas com o cofre cheio, os "heróis" de hoje defendem com fidelidade patética a bandeira da corrupção e com a sua dignidade "decepada", servem o seu rei enquanto ele tiver alguma força e trinta moedas na sua bolsa. Quando suspeitam que a bolsa está vazia ou pressentem que a mão do velho rei já treme e mal segura a espada, logo oferecem a sua fidelidade a quem traçar no nevoeiro do futuro, uma nova Estrada de Damasco por onde só eles possam caminhar. Mas quando duas mãos se encontram num breve aperto de mão, esse simples gesto pode conter todo o mundo dentro de si, ou ser apenas um trejeito social. Um aperto de mão pode conter a amizade, a ternura, a simpatia, ser um voto de confiança ou um sinal de afecto, o desejo de boas vindas ou a saudade da despedida. Um aperto de mão pode ser tudo isto e muito mais. E foi muito mais quando há dias, perante o olhar esbugalhado deste bom povo, um simples não aperto de mão, ganhou de repente uma dimensão superior e se transfigurou num momento nobre e único, onde o caracter de uma pessoa se definiu no traço mais firme das suas convicções. Quando diante de nós, de mão estendida está alguém que já não respeitamos e que ofendeu a nossa dignidade, há que ter a coragem e a verticalidade de não nos escondermos atrás de um ritual social, numa atitude hipócrita e cínica. Há momentos em que o caracter de alguns já não respeita a mão falsa de Maradona que engana a verdade do "jogo", nem tolera a prepotência de César que manda o seu Procurador Pilatos libertar o ladrão Barrabás e condenar quem está inocente.
Manuel de Brito