Portugal foi um país colonizador durante várias décadas. As colónias em Àfrica e as então chamadas ilhas adjacentes eram subjugadas por um poder ditatorial centralizado no Estado Novo. Com o evento do Abril e com a conquista da democracia, ficaram os resquícios de uma subjugação ao rectângulo continental, que nem a conquista da autonomia amenizou. Veja-se o nosso bailinho, dançado de forma curvada, historicamente retratando os tempos em que os colonos eram 'esmagados' pelos senhorios. Hoje, as nossas ex-colónias são independentes mas ainda festejam as vitórias do Benfica. A Madeira, que por acaso geograficamente fica em Africa, é benfiquista, sobretudo, mas também portista e sportinguista. O conceito de região, de bairrismo, de defesa dos ideais onde nascemos, o conceber apoio a um clube que nos identifique como região, puramente não existe. Ou se existe, existe pouco. Naturalmente que defendo que cada um de nós tem o direito de ser adepto de um outro qualquer clube. Mas há o dever de ser um pouco madeirense. E não me venham com a treta mal formada que os clubes vivem do erário público e que fazem parte deste regime autonómico, quando no fundo têm, com o seu voto, alimentado este mesmo regime. Até porque, das mais variadas formas e nem sempre de forma clara, os clubes continentais estão fartos de serem apoiados pelo erário público. Desculpem-me, porque se calhar sou eu que estou errado, mas faz-me impressão ver milhares de madeirenses num estádio cheio (e quantos destes, nestas alturas, mendigam por um convite) com as camisolas do adversário, apoiando e pulando de alegria contra a equipa da sua terra. Mesmo que tenham esse direito. Piores ainda são os biclubistas, qual camaleões, vestindo uma camisola durante 14 jogos e num trocando-a pela do adversário. Não será um sinal de menoridade o que aconteceu nos Barreiros em que, de repente (leia-se o segundo golo do Benfica) quase toda a massa humana se transformou de verde-rubra a encarnada? Benfica será campeão porque venceu na Madeira e porque foi mais forte do que outros 14 adversários. Não joga sozinho, pese embora, se calhar, o ideal era um campeonato a três, entre os grandes. Até se fartarem. Mas tudo bem, a Madeira continua a ser o que era. Por mim, tenho assumidamente um clube e exprimo simpatia, como amante do (bom) futebol, por todos aqueles que me dão um gozo muito especial pelo perfume do que espalham nos relvados. E esses não moram em Portugal. Para sofrer de clubite, cá no nosso burgo, basta um.
Emanuel Rosa, Repórter