Quando pensamos que já vivemos no século XXI, tropeçamos em "coisas" estranhas, como se o tempo tivesse parado, antes do iluminismo! O recente convite feito pelo Senhor Presidente a um jovem deputado do seu partido, promovendo-o a mais um Delfim, fez-me tropeçar nesta "coisa" estranha e que dá pelo nome de "O CLUB DOS DELFINS". Como nunca lá entrei, não sei se é um Club selecto, mas sei que é seguramente um Club muito restrito. Para se ter acesso a tal elite política regional, só por convite pessoal do seu Presidente. Mais do que o curriculum, competência ou pensamento elevado, é exigida a veneração com que se olha o seu Presidente e o deslumbramento com que se escuta a sua voz. Em cada sua palavra está sempre a verdade suprema e o seu dedo indicador, aponta sempre o único caminho a seguir. Qualquer dúvida ou tímida interrogação sobre esta verdade ou este caminho, pode comprometer o trajecto iluminado de quem o fizer. Assim se percebe o silêncio reverencial que paira neste Club como se os seus membros tivessem medo da sua própria voz. Neste Club dos Delfins, a Lealdade foi há muito proscrita e só a Fidelidade Absoluta garante o acesso a esta antecâmara do poder. Fidelidade onde qualquer olhar distraído noutra direcção ou um abraço inocento a um amigo "suspeito", são execráveis traições. Fidelidade que proíbe qualquer ideia própria e pune severamente qualquer tolerância civilizada ou o simples respeito democrático pelo adversário. Fidelidade que se esconde na esquina do Apolo a escutar conversas ou a espreitar pelo buraco da fechadura dos restaurantes. Assim se percebe porque é que os membros deste club têm medo da sua própria sombra! Fidelidade que de tão pesada, verga a coluna vertebral dos seus membros e faz tremer as suas pernas quando pretendem caminhar sozinhos. Não conheço os estatutos, mas penso que neste Club deve haver várias categorias de membros. O Delfim Honorário que há décadas aguarda respeitosamente que um dia o seu Líder, perdido em denso nevoeiro ou esgotado na penumbra decadente da Quinta das Angústias, balbucie o seu nome. Haverá também o Delfim Emergente, que na sua legítima ambição de entrar para este Club, de tão agarrado às calças do seu Presidente, não reparou que é mais um nome lançado no mercado dos Delfins para confundir e assim dividir para reinar. Como nas corridas de automóveis, haverá ainda o Delfim "Rookie" que tendo sido o ultimo convidado a entrar para o Club e partindo do último lugar da grelha, apesar dos consagrados poderem chamá-lo "maçarico", representa sempre um potencial perigo geracional para os Delfins Honorários. Se fosse eu a fazer o regulamente, acrescentaria ainda o Delfim Não Residente que trabalhando há muito tempo para o Club no continente e para tal devidamente bem remunerado, será sempre uma reserva de última linha, não vá pôr-se tudo à estalada na sede regional do Club dos Delfins. Finalmente, como em todas as organizações "secretas" haverá sempre o Delfim Ex-Delfim. Certamente que o Presidente do Club se pudesse, mandava "abatê-lo", pois ele representa sempre uma afronta ao Líder e sobretudo é uma alternativa não autorizada à sua liderança. Este Delfim na clandestinidade, é sempre muito perigosos, pois conhece o jogo escondido e as fragilidades da organização. Depois de escrever este artigo, fui à janela descansar os olhos da luz fria do computador. Olhei as estrelas que iluminam a noite em São Martinho e tive a sensação que elas me mostravam o futuro. Curiosamente, ou não, lembrei-me de um filme … "O Club Dos Poetas Mortos".

Manuel de Brito