Aprendi com os meus amigos portistas que é perfeitamente possível defender o indefensável, mesmo quando a realidade dos factos nos entra pelos olhos dentro e está provada à saciedade. Descansem que não é de futebol que quero falar nem tenho caracteres suficientes para o fazer, embora deva dizer que acho que, nesse meio, encontramos o reflexo perfeito da sociedade que vivemos, pejada de malabarismos, falta de clareza, situações pouco éticas e outras manifestamente desonestas. O que aqui me traz são notícias recentes que, apesar de pequenas no impacto económico que têm, são bem demonstrativas dessa enorme confusão que perpassa na cabeça de alguns detentores de cargos públicos, que depois derivam em promiscuidade entre o que é nosso e o que é deles. A Assembleia Legislativa Regional abre concurso para contratação de um licenciado em Belas Artes e a Presidência do Conselho de Ministros vai ter que levar com um ex-espião que, pelos vistos, tem direito a voltar a trabalhar para o Estado por força da Lei. O que tem isto a ver com economia? Nada, não fosse o facto destes dois indivíduos serem pagos com o dinheiro dos nossos impostos, que hoje tanto asfixiam as nossas empresas! Se quanto à reintegração do senhor que está muito contente por voltar a trabalhar para o Estado estamos perante um problema da Lei, que continua a assegurar benefícios escandalosos a uma série de profissões, já relativamente ao caso da contratação do artista, francamente, não há razão atendível que suporte isto e só mesmo um adepto do clube do Norte consegue justificá-la. Numa altura em que vozes reputadas defendem que o relançamento da economia só será possível se conseguirmos um corte de 40% na despesa pública, é certo que centrado na redução das rendas excessivas, nas prestações sociais e nas parcerias público-privadas, estes exemplos de agravamento da despesa são quase obscenos. Relembro, a propósito (provavelmente de nada), as sábias palavras do Papa Francisco, que não teve receio em expressar a Sua visão, contrária a um Estado assistencialista e paternalista, por contraponto a uma sociedade que dá condições, promove e tutela para que todos possam ser construtores do seu próprio destino.
André Barreto, Empresário