Bastou que na sacada do Vaticano aparecesse um Papa despido de todas as vestes simbólicas do poder absoluto e imperialista do papado e que soubéssemos do nome, para nos lembrarmos de São Francisco de Assis. Aquele jovem do séc. XII, que se despe no meio da praça contra o seu pai, um dos grandes capitalistas da cidade de Assis. Bastou isso. O que é bastante. É um gesto enorme, que revela um programa, uma vida inteira e um futuro para a Igreja que nunca será como tem sido até agora. Dirão alguns. Mas, o restante que tanta luta e debate tem gerado no interior e fora da Igreja Católica? As questões fraturantes, como se diz agora? Seria pura ingenuidade querer que um Papa, por mais que desejasse, desde logo encontrasse para todos os problemas solução cabal e que fosse uma resposta de acordo com o desejo de cada cabeça. Até porque algumas dessas questões merecem estudo profundo de especialistas e para algumas outras questões nem a Igreja Católica nem a sociedade está devidamente preparada para acolher para já uma solução como vão alguns juízos concebendo. Assim sendo, resta salientar que bastou ver, mesmo que muitos digam que seja pouco, o Papa que ostenta o nome daquele que abdicou do cómodo capitalismo paternal e se despoja radicalmente diante dos poderes de uma Europa que nadava em luxo, cujo exemplo maior é o da Igreja Católica na pessoa do Papa Inocêncio III. Os povos da Europa mergulhavam na tragédia da pobreza e morriam miseráveis com a peste e as desigualdades capitalistas que então emergiam em força. Hoje, os povos mergulham na pobreza e na orfandade, não têm referências quanto às lideranças, porque as que existem não sabem o que é a ética e o bem comum. Estão para governar contra os povos, a favor de interesses obscuros, votados à exploração dos pobres em nome de um neoliberalismo desumano que não vê senão em frente contra a justiça e contra o bem-estar dos povos. Dante Alighieri disse que São Francisco de Assis foi uma «luz que brilhou sobre o mundo». O Papa Francisco, também é uma referência, um amparo para os pobres deste mundo, um desejo que ele seja uma voz, um apelo a toda a Igreja para que se faça pobre ao lado dos pobres. É isto que importa salientar com veemência. A Igreja da ternura e da bondade, sem medo. O Papa Francisco está a dizer à Igreja e ao mundo, que a lógica do poder quando não é serviço não serve para nada. Todos nos impressionamos e comovemos com um Papa, coisa rara, vergado diante da multidão a implorar a bênção antes de abençoar, um Papa que humildemente pede que se reze por ele e que se tenha lembrado do seu antecessor como bispo emérito de Roma e que nos tivesse posto a rezar um Pai-nosso e uma Ave-maria. Um Papa que é um como nós, um irmão entre irmãos, porque a palavra mais forte que fica da sua primeira aparição como Papa na sacada do Vaticano é a palavra fraternidade. Todas as cerradas regras de segurança são quebradas para se dirigir ao encontro das pessoas. O Papa Francisco é esta «luz» que os povos deste mundo precisavam, particularmente, todos os espoliados, os pobres e os mais fracos espremidos nas mãos de governos de hoje completamente irresponsáveis. A ter em conta todos estes primeiros sinais do Papa Francisco, mesmo que ele não faça mais nada - o que não creio que um homem deste calibre nos deixe de nos desconcertar permanentemente -, a meu ver já fez muito e mostrou que tantas coisas que pareciam intocáveis quanto ao Papado, afinal, podem ser abolidas, basta que se assuma tudo aquilo que faz das pessoas verdadeiros gigantes: a ternura, bondade, a humildade e a simplicidade.

José Luís Rodrigues