Terminou, ontem, no Funchal, um daqueles raros momentos de lucidez, um milagre como muitos lhe chamaram. O Festival Literário da Madeira já se transformou, de facto e de pleno direito, numa espécie de movimento que nos salva dos dias iguais, do esquecimento e do silêncio que, por vezes, se instala como um veneno neste tempo incerto que nos traz a todos a essa condição liquida de que tão bem fala Zigmunt Bauman. Este tempo em que as soluções actuais já não nos servem, mas que outra forma de nos fazer existir não foi ainda inventada.

Nesta espécie de limbo já inferno em que nos situamos e sentamos, retenho, entre tantas e tão grandes palavras que se disseram nestes sete dias, a interrogação de José Cardoso Pires: E agora José. Foi este o mote de uma sessão na Universidade da Madeira, instaurando essa necessidade humana e poética da questão. Não da questão retórica e experimental, mas daquela que é capaz de nos abalar por dentro como tempestade que desarruma a consciência dormente pelo quotidiano e pelas coisas comuns. Perante uma plateia de jovens alunos, escritores defenderam a urgência da pergunta que encerra essa necessária inquietação que faz andar o mundo. Uma pergunta sem idade certa, mas que é antes um exercício vital como o ar que nos mantém verticais e vivos e lúcidos.

E, de facto, o maior perigo que nos espreita por estes dias de desassossego é a possibilidade de desistirmos da pergunta, de aceitarmos passivos uma realidade que nos é imposta. De, por exemplo, ficarmos à espera de que Cavaco Silva se erga acima do nome Aníbal, de que o Governo acerte o passo e o coração da humana condição, de que os nossos direitos se conquistem ou reconquistem por mote próprio.

O pior que nos podia acontecer era não questionarmos essa “Instalação do Medo” tão bem escrita por Rui Zink. Era aceitarmos que nos entrem em casa e nos instalem o medo como se isso fosse tão natural como instalar a TV por Cabo. Era aceitarmos esta ideia peregrina de que o pior que nos pode acontecer é cair o governo e a democracia se cumprir. No dia em que aceitarmos isto, estaremos perdidos como se já não fosse possível a dança de Pina Bausch. Como se ficássemos suspensos de um movimento que nos torna gente. Sim, é preciso a questão de agora, do passado, do futuro, do presente conjugado. É preciso a palavra como arma, a certeza de uma ideologia que nos move e comove. Se desistirmos da pergunta ao espelho, desistimos de nós e não há lugar com maior solidão do que o lugar que não nos traz por dentro.