Oprocesso Casa Pia levanta inúmeras questões que me fazem pensar como, povo instruído que já deveríamos ser, ainda permanecemos demasiado ignorantes face a áreas fundamentais da vida comunitária. Não quero questionar o sistema judicial nem a coerência das leis, porque essa não é a minha área, apesar de considerar importante a revisão de algumas leis sobre a proteção de menores e direitos das crianças. O abuso sexual em menores é uma área extremamente sensível que não encontra, no discurso comum, um entendimento claro e pacificador, essencialmente do ponto de vista dos abusados. Não pretendo neste artigo falar sobre os abusadores, ou traçar perfis que possam de certa forma explicar as razões do seu comportamento, estou mais interessada em esclarecer que, ao longo do processo Casa Pia, foram quase sempre os abusadores que apareceram e ainda aparecem como vítimas, numa defesa abraçada pelos seus advogados e escancarada em público pela comunicação social É certo que alguns colegas meus fizeram um trabalho sério e árduo no sentido de ajudar as crianças, essas sim vítimas, a acreditarem na justiça e acima de tudo a acreditarem nos adultos, sem medo de que a verdade assumida pudesse virar-se contra eles. Para quem nunca viveu em instituições, não teve histórias de abandonos e/ou maus tratos em idade precoce, nem trabalhou de perto com este tipo de crianças ou jovens, pode não entender o seu sofrimento profundo e dificuldade que apresentam em confiar em alguém, sobretudo nos adultos.O medo de voltarem a ser abandonados, traídos na sua vontade de dar e receber afeto. Porque as suas histórias de vida são marcadas pela dor e desconforto de não poder amar e ser amado em segurança, e as regras e leis da partilha de afetos são tantas vezes perversas, estas crianças e estes jovens crescem olhando os adultos ora com desconfiança e desprezo, ora com avidez de acreditar que alguém algum dia irá fazer a diferença. Por tudo isto, esta gente pequenina de tamanho e reservatório de amor é facilmente manipulada e seduzida a acreditar que os adultos que lhe prometem afetos materiais ou atenções redobradas, em troca de alguns favores sexuais, são boas pessoas. Tendem a compará-los com aqueles que por vezes lhes exigiam o mesmo a troco de nada ou mesmo de agressões e insultos, ou com outros, para quem eram totalmente invisíveis, ou ainda vítimas de agressão gratuita por serem o alvo, mais fácil, das explosões patológicas dos adultos cuidadores. Seduzir estas crianças é fácil e manipulá-las ao ponto de se sentirem corresponsáveis também. Não existe violência física e por vezes até se trocam carinhos, atenções ou presentes. Os abusadores sabem o que estão a fazer, apesar da sua perturbação ou perfil, as crianças ou jovens estão simplesmente a ser manipulados e usados no que de mais básico e fundamental envolve a nossa existência, ou seja a necessidade de afeto e proteção. Por isso não me venham com discursos da diferença de idade, se foi aos 13 ou aos 14, se as crianças não se lembram exatamente da cor das paredes ou das janelas, ou se os senhores usavam óculos ou lentes de contacto. As leis existem para se fazer cumprir, mas tenham dó, nem tudo justifica tudo. Eu imagino, porque também trabalho de perto com crianças e jovens com dores dilacerantes de vida, o que sofreram e ainda sofrem as crianças e jovens envolvidos neste processo, que após terem acreditado em alguém e na justiça, continuam a ter que ouvir discursos obsoletos das vitimas eternas, que passeiam com guarda-costas da advocacia, de tribunal em tribunal, a mendigar menos tempo de prisão ou medidas alternativas, que lhes permitam continuar a sua vidinha sem problemas de maior. Agradeço a todos os que acreditaram na justiça e que trabalharam arduamente para apurar a verdade e dar a estas crianças e jovens a possibilidade de confiar e acreditar nos adultos. Apesar das frustrações e das dificuldades que encontraram, deram a cara e com eles tentaram que se fizesse justiça. Às crianças e jovens que viveram esta situação e a todos os que conhecem de perto esta realidade só posso pedir desculpa pela sociedade onde me incluo e prometer que apesar de não ter força para fazer mais do que o que as minhas pernas permitem, farei sempre tudo para que se saiba com convicção que quem é abusado nunca, mas nunca é culpado de nada, nem cúmplice de nenhuma manipulação.
Manuela Parente