Concordo que é preciso distinguir os planos. Uma coisa é a pessoa, outra o cargo. Uma coisa é o cidadão Henrique Costa Neves, outra é o vereador da Câmara do Funchal. Uma coisa é Alberto João Jardim, outra é o presidente do Governo Regional. Mas alguém tem de dizer isso é ao presidente do Governo Regional. Foi ele que, durante quase 40 anos de política activa, ensinou a Madeira a misturar tudo. Alhos com bugalhos. E então temos isto: quando visado por uma crítica bem fundamentada, o cidadão Alberto João grita e esperneia e diz que estão a atacar a Madeira. Desvia a crítica dele próprio e derrama-a sobre todos os madeirenses. Mas quando dá jeito, o cidadão Alberto João diz-se presidente do Governo a tempo inteiro e perante qualquer circunstância. E durante anos e anos habituou-nos a ver sempre a mesma imagem desfocada entre um e outro plano. Ora era o presidente, ora era o cidadão. Ora vestia um casaco, ora vestia outro. Se fosse qualquer outro político, o próprio Jardim provavelmente não hesitaria em dizer que se tratava do maior vira-casacas que a Madeira conheceu. É verdade que nunca Jardim mudou de partido, mas já deu sinais de disponibilidade para o fazer através da fundação de outro partido. Sempre, claro, a bem da Madeira e não pela simples razão de que o partido onde o cidadão Jardim é militante já não o quer em cargos directivos nacionais. Nem no partido, nem nos governos e, pelos vistos, nem no Parlamento Europeu ou noutra qualquer prateleira dourada. A outros níveis, o maritimista Jardim, que ainda não mudou de clube, tão depressa defendeu a equipa única como decidiu que deve ficar tudo como está. Foi tão lesto a pedir mais poderes, como a recusar mexer no estatuto político-administrativo da Madeira. Com idêntica argumentação pedia dinheiro em Lisboa e em Bruxelas, como se orgulhava da Região rica em que transformara a Madeira. Foi tão ágil a denunciar o garrote de Sócrates, como a estender-lhe a mão depois do 20 de Fevereiro. Tão insistentemente apregoou o pleno emprego, como agora reconhece que há 25 mil madeirenses sem trabalho. Tão friamente negou a pobreza, como agora anuncia medidas de combate à fome. Tão toscamente inaugurou obras desnecessárias, como agora passa os dias a reinaugurar caminhos agrícolas e veredas a que jocosamente chama de vias urbanas. Tão maliciosamente chama vadios aos desempregados, como ostensivamente acumula salário e pensão. E mais, e mais e muito mais casos que sustentam esta política de camaleão. Também é verdade que o presidente do PSD-Madeira sempre disse ser fiel aos líderes nacionais, aqueles que teve de apoiar depois deles ter dito cobras e lagartos. E fê-lo com a mesma convicção com que lhes tirou o tapete quando mais precisavam. Quem não se lembra do actual Presidente da República, que passou de excelente primeiro-ministro a um simples sr. Silva que devia ser expulso do PSD e voltou a ser um excelente candidato a Presidente. Apenas um entre muitos casos. O mais recente foi esta semana com Miguel Relvas. Soube-se ontem, através do insuspeito Jornal da Madeira, que todos os dias faz eco de Jardim, que “sem Relvas a Madeira e o país ficam melhor”. Logo Relvas, que fechou os olhos ao escândalo Jornal da Madeira... as voltas que a vida dá! Isto sem falar do que disse Jardim dos seus potenciais sucessores que passaram de bestiais a descartados. Por isso, e por toda a mistura que fez durante anos e anos entre cargos e poderes, Jardim mereceu encontrar pela frente um rijo Henrique Costa Neves. Ao recusar-se apertar a mão ao presidente do Governo, o vereador do Funchal fez algo que vai ficar para a história da Madeira Nova muito para além do protocolo e da birra que os divide pessoalmente. O que o autarca fez só é comparável ao que fez o coronel Lacerda, aquele que, diz quem vem escrevendo a história, pregou um estalo a Jardim. A diferença é que Costa Neves o fez sem usar a mão e à vista de toda a gente. Ao recusar-se, cara a cara, a apertar a mão ao presidente, o vereador usou a arma do desprezo contra quem pensa que pode pôr e dispor quando quer e como quer. Desta vez enganou-se. E Henrique Costa Neves mostrou que entre os homens do poder ainda há gente com coluna e rectidão. Provou que dos agachados não reza a história e a ele devemos estar reconhecidos por isso. Eu estou.