Neste chão de pétalas, celeiro destes graus iluminados, eis a minha promessa de silêncio a minutos incontados, que adivinho, que adivinhas no saibro da minha voz, se estas mãos são minhas, se este papel somos nós? Quando se fazem água os olhos e se estendem os braços para toda a parte, não se procura nada, o ar tem o azul próprio e colocado parco na correcta função: o mundo não tem rosas-dos-ventos além de rosas, ventos e a pequena harmonia de ser um centro inteiro. Mas, quando se fazem água os olhos, ao se cavar na terra temos neve tão quente como nós e larga colcha de lumes inauditos que cobre os dedos mais sagazes que o medo, mais fortes do que a nuvem. Tempo alagado e limpo sobre as ervas minúsculas, tão finas que o próprio vento as zune com cuidado. À noite, os candelabros acendem-se com brilhos, entumescem de gritos adestrados e de polpa com repressões geladas. É defectivo o verbo, as pessoas são todas a terceira como lágrimas presas: a memória. Mas, quando se fazem água os olhos e as horas refluem ao coração mais largo, saltam da terra os poços, amadurecem uvas junto aos dedos e há taças de orvalho preparadas para as manhãs no peito. Em pé, há mundo que se veja até ao rio onde os choupos são novos e conhecem os corpos e as aves. Sim, há noites para falar mais baixo, porque tudo se chega ao pé de tudo e o limiar da voz é todo o silêncio. Mas, quando se fazem água, os olhos abrigam luz tão leve qual uma ave que regressasse ao ninho pela tarde. As tômbolas de folhas nos concedem um lar sem dimensão onde as palavras são dadas e mais longas. Onde é preciso nada e as luas breves. Onde os brilhos são mar ao pé da mão e da vida achada entre uma pedra e outra. Que tojo nos pertence tudo terra? Não passa o que se passa: e é fazerem-se água os olhos no jeito em salto e branco em que as cores apetecem outras cores a seu lado, que permite que exista sobre o ramo junto do peito ou perto pelo ar, o real definido além dos mapas. A mão no espaço, um olhar, a liberdade, um pássaro no mundo. Noite de sete noites, onde estrelas não as havia mais que as nossas mãos: cegos de menos, víamos com elas nossa rota nas ondas, frutos sãos. Cegos de menos, navegávamos para o sonho do que se tinha, punha, queria, achava, perdido e mais perfeito em abandono. Éramos dois, lutando contra a luta a respirar numa praia de fogos e cansaços, entre os gritos das aves e do mar, mansos de raiva, grandes mas escassos. Noite de sete noites. Verbo: dar. Tenho uma coisa para te entregar: uma pedra a pôr no chão da rua, uma lunar presença sob o sol. Tenho uma coisa que eu te posso dar: o vento a vir atrás do verde e a dizer azul no teu olhar. Escrevo-te de perto como se a mão te fosse objecto breve aflorado, como se da rua te chegasse a certeza dos minutos seguintes, de perto como o sol, como a lua, como um silêncio cheio que te viesse aos olhos de manhã e amar-te fosse música escolhida ao começar do dia. Eu amo o que não sei e no resto aposto. Amar-te é vir de longe, descer o rio verde atrás de ti, abrir os braços desde os sete anos sob a latada ao pé do largo, guardar o cheiro a figos vistos de lá, a olhar ao pé, ao pé de ti. Parar a beber água numa fonte, um acaso perdido no caminho, onde os vimes me roçam a memória e te anunciam mãos e te perfazem, como se o sino à hora de tocar já fosse todo o tempo badalado. Atrás da curva estavas, és, serias nos muros de granito, nas amoras. Amar-te era lembrança e profecia, uma porta já feita para abrir e encontrar o lar ou música lavada onde nasces, vives, moras, duras. Adiro e rememoro, calo e vejo o que não é de noite nem de dia: outro mar interior se esvazia. Arrumo e já persisto, corro e beijo a raiz de somenos, de entretanto, que era mais ao lado de um tempo ferido mais que de passado. Ao sair de pequenos, por enquanto, olhares de luzes, moitas, agonias, encontro de mãos abertas, correnteza de sumos e a pedra em que me vias: veludo teu de flores, de flor firmeza. De que flor nasce a vida, qual o campo que semeio, que hora morta ou esquecida se lembra de onde veio, se tu não estás e nomeias o minuto que nos demos e as voltas cheias de barcos, velas e remos para partir deste mar com vento e lua deitada? Para partir e chegar e o chegar não ser nada mais do que partir com água nos olhos; e tu de porto e de cais e tu de perto e de chão. Não falo de palavras. Poema verdadeiro: sermos. Por isso, Meu Amor, o que te dou: beijo beijado em água clara e viva, é mais que o verso que te dizem: aliterante, agudo ou conjuntivo. Colado a tudo, mesmo a contragosto, o rio inventa o verso e não assim como se ao espelho visse o próprio rosto, mas: Tu além-palavra, ao pé de mim.

Renata Camacho