"Resgatados" é o livro de David Dinis e Hugo Filipe Coelho sobre os acontecimentos que, em Portugal e na Europa, envolveram o orçamento de Estado para 2011, o PEC IV, o resgate e o fim do governo de Sócrates. Dos autores, jornalistas, um é repórter parlamentar, o outro foi assessor de imprensa do primeiro-ministro Durão Barroso. Neste livro não há endeusamentos nem diabolizações. Assumem os autores que «não deve ser procurado qualquer juízo sobre as decisões e motivações dos atores políticos» e que «o objetivo foi deixar um relato tão fidedigno quanto possível». É um trabalho que convida a reflectir e a partilhar reflexões, neste tempo em certa medida estranho que vivemos. Ler «Resgatados» não é só ler sobre a cronologia dos acontecimentos, dos bluffs, das opções políticas; das estratégias e das tácticas; das dificuldades nacionais e da previsível hecatombe europeia; das meias palavras e do que não fica dito, parecendo que fica; da determinação de uns e da ânsia de outros em 'ir ao pote'. É mais: é também ler um livro sobre carácter. Há muito tempo que sei que a política é menos a arte do compromisso, da negociação, do trabalho para o bem público, e mais a arte da golpada, do oportunismo e - que me desculpe o leitor - da sacanice. E chega a parecer que há um tem que ser assim! Ouve-se, com alguma frequência, que não interessa o carácter dos políticos; importante é que governem bem e 'façam o país andar para a frente'. Tenho muitas dúvidas que as coisas se possam dissociar. Tanto se me dá um político é piegas ou não, se é brincalhão ou sisudo, se gosta de caramelos ou prefere pipocas, mas já é imprescindível saber se é íntegro, sério e se tem ética. Que esta, também na política, é uma verdadeira charneira; ou há, ou não há. E este «Resgatados» também vale por isso! Sócrates é um santo? Não, mas não é o demónio que foi pintado. 'Jogou' - como sempre se 'joga'. É autoritário? Tudo indica que sim. Resistiu? Não parece exagero dizer que até ao limite. Tem fibra? Sem qualquer dúvida. Fez opções - umas boas, outras más. E há Cavaco, que meticulosamente prepara o discurso da reeleição presidencial «Não poderia ser um discurso de ocasião… Era preciso fazê-lo de maneira a que José Sócrates não conseguisse fugir… De uma maneira ou de outra, o país teria de mudar de rumo» e que, nos meses seguintes, geriu silêncios e preparou estocadas: «Precisamos de um combate firme às desigualdades e à pobreza que corroem a nossa unidade como povo. Há limites (…) para os sacrifícios que se podem exigir ao comum dos cidadãos». Na tomada de posse em Março, 2011, assim se acentua a sentença sobre o governo. Há um Catroga que inventa um grave problema familiar (não fez por menos) para ganhar tempo na negociação do Orçamento para 2011 e que, entre tantas outras 'posturas de Estado', nas discussões sobre o PEC IV aconselha Passos Coelho «Se eu fosse a si, viabilizava mais este, porque isto vai rebentar mais à frente, antes do fim do ano. Aguente e o Sócrates cai para a casa dos 10% e, então, fica bem enterrado». Este personagem não estava interessado no país e nessa coisa menor chamada populações; o importante era enterrar Sócrates. Perigosa política e perigosos políticos estes que, entretanto, se foram formando. Mas também há um Passos Coelho que num dia discute o PEC IV em reunião com Sócrates em S. Bento e a partir do dia seguinte mente sem pudor a toda a gente (ao partido, ao país, à Comissão Europeia) afirmando que o primeiro-ministro não tinha apresentado o Programa «a ninguém». Que chumba o PEC IV porque chegara «a altura em que defender o país» era agir de «outra forma», e que depois afirma no Wall Street Journal «Medidas do PEC não iam suficientemente longe». E há Teixeira dos Santos. E os jogos do binómio banca-poder. Nada disto pode ser a Política. Dirão os interessados que a vida política é isto mesmo, que já não é como antigamente, que a globalização e o imediatismo alteraram as regras. Não pode ser possível porque, algures no caminho, a tirania substituirá a democracia e a paz dará lugar à guerra. As palavras existem e significam. Resgatar, reaver - a seriedade, a justiça, a responsabilidade, o respeito, a solidariedade, a ética. Isto é, verdadeiramente, o que tem que ser resgatado!
Violante Saramago Matos