Não percebo todo este espanto pela contratação de um artista plástico para a Assembleia Legislativa da Madeira. O que aquela santa casa da democracia precisa mesmo é de alguém com a licenciatura do 'boy' do presidente do parlamento. De alguém criativo ao ponto de embrulhar todos aqueles elementos estáticos e decorativos que ornamentam o hemiciclo e não abrem a boca para nada e crie uma peça de arte para plantar numa rotunda bem longe de nós. Afinal, a arte plástica é também é isto: reciclar, dar utilidade às peças mortas.

Se todas as manhãs em que há plenário, a sessão legislativa tem de aguardar meia hora pela chegada de todos os deputados do PSD mesmo com quórum, só para que não haja um diploma que seja votado sem a imposição da vontade da maioria, nada melhor do que fazer um retrado em aguarelas dos retardatários para colocar no seu lugar ou então preencher essas horas mortas de longa espera com aulas de expressão plástica porque embora se ressalve o esforço dos senhores deputados em tentar produzir obras de arte, a verdade é dali saem apenas gatafunhos. Além do mais, é preciso imprimir pluralismo artístico (o outro não interessa) na casa da democracia, farto, velho e cansado que está o presidente da Assembleia Legislativa da Madeira em aturar os números de minuto e meio de José Manuel Coelho.

Depois, porque é impreterível a criação de um “consultor parlamentar” para os assuntos da indumentária. Antes contratar um licenciado em artes plásticas com um ordenado de 1.300 euros do que pagar um caché a um estilista que nem presta vassalagem ao regime. Assim, o Parlamento ficará dotado de alguém com competências “específicas de acompanhamento e assessoria técnica especializada aos trabalhos parlamentares” e possa, enfim, assegurar o cumprimento estético dos estatutos do regimento da Assembleia, certificando-se, por exemplo, que não haverá jornalista algum a pisar aquele solo sagrado, de moral suprema e insondável ética, trajando uns reles ténis ou uma deplorável 't-shirt'.

Sem sombra de dúvida que não faltará trabalho ao jovem militante da JSD, actual chefe de gabinete de Miguel Mendonça que, à partida, reúne a “condição preferencial” do concurso aberto à medida do seu currículo e da sua ainda curta carreira. Com tantos candidatos a abandonar o elenco parlamentar por velhice não faltarão pés de gesso para exposições ou testas de ferro para exibir nos escritórios particulares, consultórios e salas de pedra mármore ou para estampar em nomes de rua.

Não venha, portanto, essa cambada de invejosos pôr em causa a contratação a termo efectivo deste “consultor parlamentar”, dotado do conhecimento adequado para “elaborar pareceres” e para exercer “funções de investigação, estudo, planeamento, programação, concepção, adaptação e aplicação de métodos e progressos científico-técnicos de âmbito geral e especializado que fundamentem e preparem a decisão de apoio à actividade parlamentar”. E mesmo é bom que ninguém perceba o que isto significa, o que está por detrás desta “narrativa”, nem façam contas de quantos 'artistas plásticos' já foram contratados pela política deste país para representar na realidade um mundo idílico e imaginário. Porque a política é uma arte plástica.