E se lhe dissessem que tudo em que acredita é mentira? Que afinal aquela premissa que lhe ensinaram está errada? Iria certamente começar a pensar que todos aqueles esforços, todos aqueles cuidados e limitações, afinal não valeram de nada! Vou ilustrar esta ideia com um caso real. Veja-se então o caso do Sr. Governador do Banco de Portugal, que no dia 11 de Junho de 2012 fez uma intervenção na 18ª Conferencia de Montereal e disse:
“Um grande número de estudos (…) sugere que rácios de dívida elevados, tipicamente em torno de 90 por cento do PIB, estão associados a resultados mais inferiores em termos de crescimento económico. (…) Com efeito, um aumento de 10 pontos percentuais do rácio da dívida pública dos países altamente endividados poderá ter um impacto sobre o crescimento que varia entre -0.1 e -0,6 pontos percentuais.”
Tudo isto está baseado nas conclusões de um paper de dois economistas (Cármen Reinhart e Kenneth Rogoff), que no seu estudo de 2010, “Growth a Time of Debt” comprovam cientificamente esta teoria usada pelo Sr. Governador do Banco de Portugal como base do seu discurso. Mas o Sr. Governador do Banco de Portugal não é o único a acreditar nesse estudo. É frequente vermos nos documentos publicados pela Comissão Europeia e por outros órgãos europeus referencias a este estudo. Só para dar mais um exemplo, podemos ler numa carta de Fevereiro de 2013 enviada por Olli Rehn, vice-presidente da Comissão Europeia, aos ministros das finanças:
“Temos que recordar que a divida pública na UE cresceu desde os 60% do PIB antes da crise aos 90% do PIB. Está amplamente reconhecido, baseado em estudos académicos sérios, que quando os níveis de divida pública sobem acima dos 90%, tendem a ter um impacto negativo no dinamismo económico, o que se traduz num fraco crescimento durante muitos anos. É por isso que continua a ser necessária uma consolidação fiscal coerente e cuidadosamente equilibrada na Europa.”
É precisamente este estudo que foi inúmeras vezes citado pelas mais altas instâncias europeias, que outros três economistas contestam. Segundo Herndon, Ash e Pollin, existe um erro nas fórmulas do excel do trabalho de Reinhart e Rogoff, que levam a que uma grande quantidade de dados não tenha sido incluída neste estudo. Estes três economistas refizeram os cálculos e conluiaram que, ao contrário do que dizia Reinhart e Rogoff, os países com divida/PIB superior a 90% cresceram mais de 2%.
Isto em ciência é perfeitamente normal. Uns estudam um assunto e chegam a determinada conclusão que é mais tarde contestada ou absolutamente refutada por outros. É assim que se constrói a ciência. O que não é normal é que políticos responsáveis, tomem por base um estudo recente que ainda não teve tempo de ser consolidado pela comunidade científica e o tomem como um pilar para todas as suas politica de austeridade. Esta via, que os mais altos responsáveis europeus escolheram para ser aplicado na Europa, e que está a afectar fortemente a vida de milhões de Europeus, é uma via que afinal não está tão amplamente reconhecida no mundo cientifico. Afinal o pilar da política de austeridade não está seguro. Quando construímos uma ponte e um dos pilares principais é fraco por estar mal construído, não demorará muito até que haja uma tragédia. Pois é isto que está a acontecer à economia Europeia. Um dos pilares principais está errado e a miopia dos políticos não nos permite sair deste ciclo recessivo.
Luís Pedro Branco, Gestor Financeiro