Os portugueses estão desiludidos com a política e com os políticos, que são os principais responsáveis pelo estado de falência a que chegamos. Cansados das promessas falsas e da austeridade que ameaça agravar-se. Tudo isto nos acontece 39 anos passados sobre o 25 de abril de 1974, da dataque nos restituiu a liberdade e a esperança de uma vida melhor, após 48 longos anos de mordaça. Mais que nunca, os valores de abril têm de se reinventar num momento em que temos um Estado insensível, perverso, que não se coíbe de atacar os reformados e os pensionistas, os doentes e os desempregados. Os mais frágeis. 39 anos após a revolução, debatemo-nos como nuncacontra uma investida violenta ao Estado Social, contra o que julgávamos ser intocável. No meio da contestação, das manifestações convocadas pelos sindicados e por grupos de indignados olho para a ilha, duplamente castigada pela insensatez governativa. Paga a crise do país no seu todo e a provocada pela incúria do governo regional. E tropeço no inevitável: na Madeira a classe política dominante continua a não celebrar o 25 de abril. Não comemora o dia da Liberdade, nem homenageia os que lutaram pela queda da ditadura, na Assembleia Legislativa. A mesma classe agarrada ao lugarzinho desde os primórdios da autonomia não se revê nos pilares de abril. E isso rege a sua ação. Em parteisso explica o amorfismo cívico de grande parte da população insular. Enquanto aqui, no continente, ninguém se inibe de emitir uma opinião contrária às medidas impostas pelo governo, antes pelo contrário, brindam-nas com sonoros protestos, na Madeira há muitos que temem ser penalizadospor pensarem diferente. Duas décadas após do momento inicial, não se protesta porque isso é demasiado arriscado numa terra onde se continua a confundir emprego com governo, estrada com governo, subsídios com governo.Há gerações educadas nesse sentido. Na perspetiva de que a autonomia regional e o PSD/M de Jardim são a mesma coisa. Como é possível subsistirem atropelos à liberdade de expressão no arquipélago? Como é possível não se assinalar, no órgão próprio, um marco determinante da História do país, por mais que se discorde do rumo que depois veio a ser tomado? Não há justificação possível. Para se alcançar o 26 de abril temos de não esquecer o melhor que nos trouxe o 25. Esse continua a ser o momento primeiro. Na Madeira - e custa reconhecê-lo - o essencial está pela rua da amargura: a saúde, o ensino, o emprego, o investimento. Esta autonomia regrediu e cavou ainda mais o fosso como continente. Chegou ao momento de recordarmos a quem governa que este não é o caminho. Em 1974, o 25 de Abril chegou atrasado à ilha.Só dois dias depois a população do arquipélago ficou a saber que afinal o antigo regime caíra de podre, na rua. Mas esse dia (da liberdade) continua longe. Porque perduram medos inqualificáveis, porque há controlo governamental em tudo o que mexe, porque, passados 39 anos, há receio de intervir. Há intimidação. Festejar abril é congratular-se com os direitos, liberdades e garantias alcançados. Amorfismo, indiferença e conformismo fazem parte do 24 de abril de 1974.

Roberto Ferreira