Um pequeno momento, só para dizer. A pequena palavra que por que nasce o dia:
( um poema exigente, tal como amor; poder dizer: toda a ternura de mãos entreabertas ) O teu corpo existir; a que se alia eu tê-lo, como um silêncio cheio que viesse aos olhos de manhã dizer: amor! Tempo verde de choupos, de salgueiros, de rios ignorantes e espraiados. A minha sede estava com a tua, embrulhada em sombras pelas margens, e nada mais criança que a nossa pura e simples permanência. Os deuses estavam mortos; agora só um soprava o próprio sangue em secas veias e mandava novos pássaros, para a sólida harmonia do teu corpo. Cantavam as fontes e não era dia, os céus, eram azuis todas as vezes e fontes para nós. Quem há que saiba ou não saiba ? Um momento era a nossa madrugada e no silêncio tudo nos era revelado. Imperfeitos, inconscientes e tranquilos, a nossa ciência era a infância. Naquele tempo viver era a melhor coisa do mundo. Quando o sol todas as pessoas viam e os homens eram crianças para além. Era uma planície, grande como convém a todas as planícies plana porque tudo estava certo. Naquele tempo tínhamos sido criados e éramos iguais às plantas e às flores- Tu, tão perfeita que era impossível não seres, tão suave, e estavas ao meu lado, naturalmente, e não havia motivos nem razões porque sabíamos tudo. A nossa teologia era o beijo da criança mais próxima e o deitarmos na terra como folhas da mesma planta. Olhando para cima, o céu abria-se e todos os anjos vinham sentar-se no rebordo e riam como nós pequenas gargalhadas. Eu cantava canções mais belas do que não tenho palavras e ouvias-me em silêncio e de olhos abertos, exactamente como a todos os sons. O tempo era os teus olhos claros enquanto as aves cantavam e, sonolento, o rio estava fresco. Abanavam as folhas, ligeira fronte, e então nascia dos teus lábios a canção da sombra aconchegada do primeiro mar. E aquele dia em que viemos à cidade correndo tanto que o vento te puxava? Não era meio-dia nem meia-noite: eram todas as horas no meio. Lembras-te como nos perdemos pelas ruas? Andámos a pé, brincando com os passos como os meninos, saíam gente para nos verem passar, demos todos as mãos, fizemos uma roda e andámos a rir, ajoelhados, naquela praça onde havia uma igreja. Depois gritámos adeus e perdemo-nos de novo. Fomos ter diante de uma estátua e desenhei-te no mármore, demos o braço corremos de novo, e estávamos não sei onde certos de que o tempo nos tinha baptizado - tudo para além. Nossos olhos eram largos habitantes e num só gesto novo sob o teu olhar eu escrevia a palavra. Como eram cheios os dias e tudo! As fontes erguiam sorrisos no ar e a neve caía para nossa surpresa. Minhas mãos tinham sempre as tuas com tal inocência, com tal alegria que nunca se viu as folhas caírem. Nossos pés descalços corriam na terra e o verde que há na floresta fazia chorar os olhos erguidos de sombra, de cantos, de mil vibrações, naturais, entregues sem outro destino.
Nos brancos carreiros, onde era o lugar, entre folhas ali colocadas, cantavam as aves de todas as luas sua breve nota da grande canção. Passavam nos passos da nossa corrida todas perfeitas, virginais gazelas, cisnes nunca vistos saindo do lago. Estavam puros os risos das plantas, dormiam baixinho descobertas gaivotas e os peixes corriam à orla do mar e nadavam no peito das nossas pegadas. Parados, enfim, e sentados no chão comíamos frutos tendo toda a alma nas cores e nos cheiros - novas descobertas. E, pegando na mão que me entregavas tão séria-serenamente como água e rio, meu olhar corria para tudo e tudo era cheio de todas as coisas. Cada olhar era agradecer e em longos minutos a tarde caía. - Vai até ao fim do ar colher a branca flor, corre e vai escolher a rama dos minutos. Traz a doce mó do monte do silêncio, vem solucionando a largos olhos. - Não sei, bom é não saber - demos as mãos, vamos dançar sentados e deixa-me pedir-te a flor , a mó, o ramo de impossíveis. Só quem os tem os pede. - Isso! Brinquemos à esperança. Descuidados, sabendo o irreal e repitamos o jogo: manda-me procurar de novo e irei buscar o segredo de aqui estarmos. Diz outra vez: Vem! Diz outra vez: Corre! Aqui os dois, neste cantinho de árvore, façamos um brinquedo de olhos levantados com os raios de sol de música que nos afaga. Sonho-te real em lágrimas de mar, refaço as mãos - tuas raízes verdes - conto e reconto as horas que passámos. Repiso os passos, rasgo a estrada branca, renasço em cada gesto que fizemos. Ajoelhando-me, enquanto, longos e dolorosos versos nas veias vão doendo. Neste seco papel, nestas letras caladas, tudo volta e eu vejo. Eis que aqui estou e esta mão desenha o que era tu chegares, desenha o mar cheirando bem, desenha o vento tal e qual. Ontem, ainda ontem, era bom tudo começar e ficarmos calados horas a fio, fazendo com os dedos figuras na areia. De súbito, eu dizia uma palavra e nada acontecia. Acontecer era um dia termos corpo, pernas, sangue. Acontecer era tu olhares-me e dizeres, a rir, que tinhas sono ou não dizeres nada por estarmos distraídos olhando para fora. Quando um grão de areia de terra mudava de lugar ou alguma ave passava à nossa frente estendíamos os dedos e tu dizias: Olha! Ontem, ainda ontem, aconteciam verdadeiras coisas, aconteciam muitas e sérias coisas e agora neste seco papel tudo volta e eu vejo. Gloriosamente, tudo no lugar. Á segurança destas paralelas - a beira da varanda e o horizonte, assim me pacifico e é por elas que subo lentamente cada monte. O tempo arrefecido e soprado por uma brisa tarda que do mar torna este minuto leve, aconchegado, traz mansas as certezas de se estar. E, vêm novos nomes enchendo de silêncio este sim, dele fazem brinquedos, madrugadas… Agora estou em ti e tu em mim. Agora são lumes o que escorre? Ou céu parado no teu olhar? Húmida, feliz a memória das crianças: nós o somos. O verde do cimo das cascatas é a monção tranquila: só nela, mas não nela : a garantia. Se da tarde voa, é meu e teu, e brincas minha - somente. Ao calor da tua mão refaz-se o mundo. Jardim suspenso: a hora nasceu. Ecoa-se um silêncio lá no fundo: o mar é contrafeito mas é meu. E nada mais só! Oh, tempo imenso que passa sem passado e está em ti! Deitado pelo ar aos olhos digo; e já não penso nos muros de saltar e já te vi. E canto agora o passo e a pegada, a ida pelo campo até ao mar; a precisão da hora de encontrar já estava no teu olhar - ignorada. Em mim, também: coisa nenhuma pudera até então entendida. Só lentamente se faz vida. Azuis, verdes, são deuses que aparecem trazendo mansas vozes, ventos do sul e mar nas solitárias margens e brandos entristecem ao som das palavras: nós temos a água. São tempos ora refundidos, trazem a morte - avançam seus convites; não sabem que é mais forte a certeza indivisa de termos cada fonte. No desfazer-se de água ,ruídos arejados, dizem da tua vida tímida: a água que desce a paz descendo se insinua nesta manhã espalhada, na gente da rua que ao sol e só por ser te sabe já nascida e por ti, nos teus olhos, na esquina de cada rua, mais calma e diurna nasce a vida. Desdigo as horas e quem demais se apressa? Contigo, ó meu amor, um ramo dança mais livre que do tempo, o tempo cessa com esse frágil jeito; e tu: descansa. Eu digo exacto e dito a forma - não há se deixo tempo que não converta as sombras alongadas de girassol girar, a girar…oculto adorna a água e faz-se flor, folha de um íntimo teor e de ti a mim é vento que nos olha num ímpeto maior. Digo-te uma coisa: as aves cantam e estacas representam as imensas ou verticais presenças pelo ar. Tímido é tudo e são areias que em cada dia dunas se dispõem. As aves sempre cantam: é densa a dança, amor, quando nos acompanham. Agora, esperas, imperas, ainda, diferente e a água já passa outra vez chegada e partida. Adivinha, talvez - é como isso presença da justiça na própria mão que fere ou espada e está pintada, instada, instante entre a bruma adormecida. Esta noite, cada noite, para toda a noite, para toda a parte: caminha. Sim . Caminha para ti, para a água onde esperas a chegada tão suave. Ali. Na fresca sombra nem há tempo para esquecer. Será na urze molhada que encontrarás o lugar onde havemos de aparecer, concha de mar destinada ou sítio para eu te buscar. Ás tantas, tantas horas, a hora que caía levantava o peso do calor, o peso das demoras, a sombra escuridão e a lava, a marca do vulcão que há tanto percorria o que silente e cego se calava e já sabia. No tempo que do mar se apunha lentamente ao tempo que de súbito se acalmava, era silêncio o estar, ser lúcido e presente, olhando só: dizer. Quebrava - não era mais de ter a noite inteira, a terra dizia que afinal eu te esperava ali na serra. Se dia, porque dia, como dia, se agora, mas ainda como que foi: palavras, olhares, anoitecia, mas nada, porque nada, porque dói. Sentada, levantada, acorrentada ( neste papel ) não sei se vou - ou não é isso, mas tanto, por tão pouco e acabou. E eras tu, que, se choravas te enchias de segredos e já mos davas. Que tempo me empurrou? E quem se deu no escuro e de repente às minhas horas? Que fogo nos pinheiros se acendeu? Minuto - qual tu foste e que sentido? ( Que tépida certeza nas videiras…). Quem se deu por encontrado o que foi alcançado verdadeiro? Em ti, amor, o zero exacto e brando se ergueu desfigurado dos caminhos; e tudo foi presente e sempre estando. Agora vamos aos ninhos.
De ti, o cálice levanta no ar água e é, assim, que eu percebo, meu amor, que a manhã renasceu e que ela é santa. De ti a noite satisfaz às horas que esperei pelo sono. Agora cada estrela está no mesmo exacto sítio em que estás. De ti uns olhos indicando o lugar que serena e onde reponho os dias novos entregando. E, de ti é que sei quem foi que deu cada minuto de hoje e como estando calada e colocada a noite amanheceu. Água: paz que mal se adivinha aí é que descansa a tua mão na minha. Agora: a tua pele. Revejo: é terno o mar. Descanso: os teus olhos. Entrego: a minha mão. Nada nasceu, é isto, andamos à roda. Quando morreste, na Tua estranha casa sabemos quem ficou? Por quem o pão foi amassado e recebido em falta? Hoje, no próprio dia de hoje, quando e nunca lá chegamos, porque é redondo e Teu, mas um dia ( cedo, cedo ) os Teus passos nesta terra, enegrecida por questões ( tantas…) dirão, claramente, que o Sol é de verdade. Que paz será?
Alguém contava a história, mas nós contamos a memória. É o que vale.
Renata Camacho