Participei esta semana, com muito gosto, num seminário dos alunos de mestrado de Gestão Cultural na Universidade da Madeira. O tema em debate foi “Jornalismo Cultural – Trajectória e Reflexões”. Muito por mérito das questões lançadas pelos estudantes e pelas intervenções dos convidados, a conversa no auditório do Colégio dos Jesuítas extravasou em muito, e ainda bem, o inicialmente proposto. Das várias ideias interessantes que lá foram transmitidas retenho uma afirmação do vice-reitor da Universidade da Madeira. Em democracia, a opinião compromete, disse Sílvio Fernandes. O conteúdo da afirmação, numa terra como a nossa, tem uma dimensão maior do que a simples forma como foi dita de maneira despretensiosa e em jeito de réplica a um estudante mais empolgado. Em democracia, a opinião compromete. Não podia estar mais de acordo com esta constatação que ajuda os mais incautos a perceber por que razão há tão boa gente cheia de ideias, prenhe de pensamentos, obesa de frases decididas e taxativas, mas, no entanto, quando se lhes pede uma opinião acompanhada com nome e rosto, a grande maioria desses cidadãos convictos e de espinha tesa acaba por parir um lugar-comum, um vazio, um nada. Alguns ainda arriscam uma frase longa mas redonda e oca. Espreme-se e toda aquela certeza afinal era só uma: a certeza de que a opinião compromete. E o melhor, o mais confortável, o mais quentinho, é ficar sob a manta do anonimato, resguardar-se no lusco-fusco, ir pela sombra, porque o sol queima. Já uma vez aqui falei da sociedade anónima que domina a Madeira. Desta sociedade feita de corajosos na bilhardice, de gente de peito cheio na conversa de pé-de-orelha, de frases antecedidas e terminadas por um insistente “não me comprometa”, “não diga que fui eu que disse” e outras coisas que conferem a este povo superior uma tremenda e assustadora menoridade democrática. Apesar desta deficitária participação cívica, tenho de fazer uma importante ressalva para enaltecer aqueles que livremente se comprometem nas páginas do DIÁRIO. Que se libertam de grilhões do tempo da outra senhora e assumem pensamentos que são deles. Fazem-no gratuitamente em espaços de opinião que, estou certo, não raras vezes já lhes valeram chatices. Mas acredito que dormem de consciência mais tranquila. É absolutamente verdadeiro que a opinião compromete quem a subscreve. Eu sei que sim. Sinto-o todas as semanas. Mas há uma verdade de valor superior: a ausência de opinião assumida compromete-nos a todos. A prova anda pela rua. Pelas ruas da amargura, para ser mais preciso. Basta ver este marasmo, estas águas paradas, este pântano malcheiroso em que a maioria se move com prudência, a olhar sobre o ombro para ver se alguém os vê pedir licença a um pé para mexer o outro. A opinião compromete. A sistemática falta de opinião é o espelho do mais puro exercício de hipocrisia colectiva. Em tempo de cravos e revoluções, esta é uma boa matéria para reflexão. É tempo de cumprir Abril. De comprometer-se com Abril. A favor ou contra, o importante é ser-se alguma coisa. E acabar com esta letargia que se confunde com uma demissão de pensar, de ser, de dizer. A ameaça Estava eu a dar por terminado este artigo quando sou confrontado com um comentário a um curto texto assinado por mim sobre o conteúdo da edição do DIÁRIO desta sexta-feira, 26 de Abril. Comentário esse de um corajoso cidadão que se identifica como um estranho nome: “Deus tem um calêndário para cumprir”. Assim mesmo, com erros e tudo. O leitor em causa dá a sua opinião, legítima, sobre a pavimentação da pista do aeroporto do Porto Santo mas conclui com uma sentença que diz ‘apenas’ isto: “É chato ver que no futuro vou ter de pôr na linha certa gente cá dentro que anda sempre a chatear e a incomodar/atrasar o desenvolvimento desta terra (cuja importãncia que vai ter a nível mundial começo a achar demasiada para a cabecinha pequenina da tal "certa gente") mas fica desde já o aviso. É que tipo... o Mundo tem pressa e não tá para atura-los! Ou colaboram ou são "afastados" de forma divina”. Ameaça, brincadeira de mau gosto, infantilidade, desvio mental? Seja o que for, corrobora a ideia que sustenta este texto: em democracia, a opinião compromete.