Quase doze anos decorridos sobre o atentado das Torres Gémeas em New York os Estados Unidos voltam a confrontar-se com a ameaça terrorista. Numa dimensão muito menos intensa, é certo, relativamente ao episódio das Torres Gémeas, não sendo comparáveis a nenhum título nem a devastação nem as consequências de um atentado e de outro. Na verdade, enquanto nas Twin Towers operaram aviões da Delta Airlines, tendo sido as aeronaves e as suas tripulações as armas de arremesso utilizadas pelo terrorismo internacional contra a segurança americana, agora em Bóston foram manipulados engenhos artesanais. Com um poder de devastação ainda e em todo o caso relevante. Significa a ocorrência deste episódio que os tempos de pacificação que se seguiram ao onze de Setembro se mostrem agora comprometidos? Não se tenham dúvidas de que os Estados Unidos viveram ao longo destes quase doze anos um tempo de acalmia prolongado. Mas seria sempre temerário concluir a partir daí que a América estaria condenada a ter de preparar-se para uma nova onda de terrorismo capaz de abalar os seus alicerces. Na verdade, as conclusões já conhecidas da investigação que a partir da fatídica segunda-feira de Bóston têm vindo a desenvolver-se de forma incessante apontam numa direcção única: que os ataques - foram deflagradas duas bombas - radicando muito embora em motivação religiosa, foram preparados e executados pelos irmãos Tsamaev sem apoio de mais quem quer que seja. O terrorismo, mais a mais quando suportado em motivos religiosos conforme é agora o caso, é um inimigo com que se torna muito difícil de lidar, porquanto lhe são quase sempre desconhecidos os contornos. E é sempre mais problemático lidar com um inimigo cujo rosto se não conhece. Quando o alarme soou em Bóston durante a Maratona que habitualmente conta com a participação de vários atletas portugueses, a América viu-se soltarem-se de novo os demónios que no 11 de Setembro de 2001 a deixaram a ferro e fogo. Sem ter muito embora o impacto que o ataque ás torres gémeas alcançou, este episódio significou depois disso a vez seguinte com um interregno de mais de onze anos em que a América voltou a ser atacada no seu próprio terreno, o que, há que reconhecê-lo, representa um acto de um arrojo inaudito. Só que felizmente deste vez o arrojo do empreendimento não teve reflexo na dimensão dos danos ocasionados. E isso tornou-se perceptível desde o primeiro momento. Acresce, contudo, que a América tem mostrado saber aprender com os seus próprios erros. Em 2001 os serviços da inteligenzia americana tinham estado na pista dos terroristas mas depois, por motivos que mal se entenderam, abandonaram-na, negligenciando claramente os sinais que haviam recolhido. Com os resultados que deixaram o mundo atónito. Desta feita tal não aconteceu, os pelo que a partir do momento em que deflagrou a primeira bomba em Bóston a investigação americana não mais parou de agir, não fazendo nem cedências nem concessões, só descansando quando deitou a mão ao segundo dos suspeitos, numa operação que durou vários dias e que mobilizou cerca de nove mil homens. Conhecendo-se agora conforme se conhece a dimensão da ameaça, poderá dizer-se ter ocorrido uma manifesta desproporção entre os meios afectados e os seus contornos efectivos. A questão está em que quando o alarme soou, a América ignorava ainda e ignorou por mais algum tempo qual era a dimensão efectiva da ameaça que sabia estar-lhe apontada. E muito embora existissem sinais inequívocos de que se tratavam de ameaças com um grau de perigosidade muito distinto, os seus responsáveis não quiseram correr mais uma vez o risco de negligenciarem sinais. Pelo que estiveram em alerta máximo até ao derradeiro instante da operação. Este episódio, que conheceu uma ampla divulgação conforme apenas um evento como a Maratona de Bóston seria capaz de garantir, permite recolheu um importante ensinamento: o de que a vulnerabilidade é maior quando se centra em episódios com dimensão doméstica do que quando as atenções se encontram voltadas para acontecimentos com maior dimensão. Isto para dizer que o doloroso episódio do World Trade Center seria hoje irrepetível atenta a forma como os factos se passaram, na justa medida em que as cautelas a todos os níveis aumentaram muito de magnitude, sendo os aeroportos, em consequência dos ensinamentos recolhidos a partir do passado relativamente recentes, das estruturas mais vigiadas e onde todo o êxito de qualquer tipo de sabotagem se torna mais problemático. Avolumando-se as estratégias em permanência desenhadas para procurar garantir a sua intangibilidade. Mas uma prova desportiva como a Maratona de Bóston ou como qualquer outro tipo de prova deste género, disputada em circuito aberto e onde como tal não se torna possível ou pelo menos se torna dificilmente exequível colocar condicionamentos ao ingresso de quem a pretenda acompanhar, por forma a limitá-lo, é um campo sempre propício a este tipo de agressões.
Carlos Sequeira